
Segure Minha Mo
Robin Jones Gunn
Srie Selena 12

Ttulo original: Take My Hand
Traduo de Myrian Talitha Lins
Editora Betnia, 2003
Digitalizado por deisemat
Revisado por deisemat




Chegou o momento com o qual Selena sonhou durante tanto tempo! Ela e Paul finalmente iro se encontrar... Selena j no aguenta esperar! Depois de pensar que nunca
mais veria o Paul, eles estaro juntos aps um longo tempo se comunicando apenas por carta. Junto com a famlia, ela ir viajar para o noivado de sua irm Tnia, 
na Califrnia. E j est com tudo arrumado para cursar a universidade l. Mas a sensao de frio na barriga no  somente por que ela ter de deixar a famlia e 
os amigos de Portland, mas porque poder olhar nos olhos de Paul e conversar sobre seus sentimentos.
Em meio a toda essa expectativa, um estranho acontecimento deixa Selena magoada e confusa. Ela precisa tomar uma deciso que pode abalar profundamente seu relacionamento 
com Paul.
E agora? Selena deve encarar os fatos e abrir mo do que sente pelo rapaz? Ou deve deixar tudo como est, mesmo sabendo de algo que Paul no havia revelado para 
ela?
Digitalizado por deisemat

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SEMEADORES DA PALAVRA e-books evanglicos


Para Tiffany, Michele e Nicole, trs "tesouros peculiares".
Jamais percam o amor que vocs tm por Jesus.


Captulo Um
      
      Selena Jensen inclinou-se e ergueu a ponta da colcha, para dar uma ltima olhada debaixo da cama. No havia nenhuma sujeira; nem mesmo um rolinho de poeira. 
Estava tudo limpo. Ela no deixara nenhum objeto fora de lugar. Todo o quarto se achava bem arrumado.
      Sentou-se por uns instantes e correu os olhos pelo aposento, admirando aquela cena rara. A brisa morna do vero soprou quarto adentro, fazendo voar as leves 
cortinas. Em seguida, deu a volta por ele, passando pela velha cmoda, com seu espelho oval, pela poltrona estofada, e pelas camas recobertas com a colcha chenille 
branco-marfim. Afinal, no encontrando nada que a pudesse perturbar, saiu porta afora, e se foi pelo corredor, descendo as escadas da velha casa vitoriana.
      O quarto de Selena nunca estivera impecvel assim, a no ser uma vez. Fora na ocasio em que a famlia viera da Califrnia para Portland, quando a garota fazia 
o segundo ano do ensino mdio. O que aconteceu foi que, no dia da mudana, ela estava viajando. Achava-se na Inglaterra. Ento, quando chegou em casa, tudo j estava 
arrumado. Nesse caso, o mrito tinha sido de sua irm Tnia, que ajeitara todos os objetos nos devidos lugares.
      Agora Selena estava com seus pertences empacotados, pronta para viajar. Ia estudar fora. A irm tambm se mudara no ano anterior. E uma semana atrs, Tnia 
comunicara  famlia que iria ficar noiva de Jeremy. Entretanto parecia que fora ontem que eles haviam se mudado para essa casa. Um sbito sentimento de tristeza 
tomou conta de Selena. Outra lufada de brisa rodopiou pelo quarto.
      - Tudo certinho? indagou uma voz.
      Era a me de Selena que entrava no aposento. Ela deve ter percebido o ar pensativo da filha. Com um sorriso compreensivo, Sharon Jensen aproximou-se e se sentou 
na beirada da cama.
      - Onde ela foi parar...? indagou a garota.
      - O qu? quis saber a me. Perdeu algo?
      Selena deu um suspiro.
      - Minha infncia, respondeu. Parece que estava aqui um minuto atrs.
      A me deu uma risadinha e passou o brao pelo ombro da filha.
      - , meu bem, disse ela. Sei o que  isso, sei mesmo.
      - Eu a queria de volta.
      - Sinto muito. Agora s d pra caminhar  pra frente.
      - E se eu fizer tudo errado? Se no souber administrar direito a minha vida?
      A me riu de novo.
      - E se eu no estiver preparada para fazer uma faculdade? insistiu a garota.
      - O que voc iria fazer?
      - Sei l. Viajar, talvez. Acho que gostaria de ir morar na Europa uns tempos. Ou navegar pelos sete mares. Ou escalar o Monte Fuji.
      - Voc poder fazer tudo isso, desde que... e aqui a me parou.
      - Desde que faa a faculdade antes, n?
      - No, replicou Sharon, eu ia dizer, desde que pergunte ao Pai.
      - Pergunte ao papai?
      Sharon Jensen apontou para o alto.
      - No, ao Pai celeste. Minha filha, voc no faz idia de quantas aventuras maravilhosas poder ter pelo resto da vida! Por outro lado, Deus j est com seu 
futuro todo planejado. Ento forme o hbito de consult-lo. Pergunte-lhe tudo. Sempre. Ele ira orient-la, Selena.
      - ; ele ira dirigir-me, pois  o meu Bom Pastor, concordou a garota em voz baixa.
      Nesse instante, teve uma agradvel sensao emocional, ao rocordar-se de uma carta que Paul lhe escrevera meses atrs. Fora a que ele lhe mandara antes de 
partir da Esccia. Nela, ele falava sobre Deus como o Bom Pastor, que cuida de suas ovelhas e as protege. Pensando nisso, o futuro lhe parecia bem menos aterrador. 
Como poderia ter medo do que a aguardava nos anos seguintes, se Deus j tinha tudo planejado?
      Levantou-se da cama de um salto, assustando a me que olhou para ela.
      - Ah, no! exclamou. Quase me esquecia! Que horas so? Tenho de ir me encontrar com a Amy e a Vicki na Mother Bear. Vou chegar atrasada!
      - Ah! disse Sharon, erguendo-se e correndo os olhos pelo quarto. Estou vendo que tudo est pronto. Wesley j levou aquelas duas ltimas caixas para o trailer?
      - Ele desceu com elas, mas no sei se vo caber l.
      A garota se sentia meio sem jeito por causa da breve crise de nostalgia que tivera na presena da me. Afinal, Wesley, seu irmo mais velho, tambm iria estudar 
na mesma escola que ela, a Universidade Rancho Corona, que ficava na Califrnia. Ele j se formara na Universidade Estadual do Oregon e agora ia fazer ps-graduao 
nessa outra faculdade. Alm disso, a Tnia, sua irm, morava perto dali. A casa dela ficava a menos de uma hora de carro. Selena no entendia por que, de repente, 
sentira tanta tristeza em ir embora. Na verdade, poderia estar sempre em contato com os irmos e os amigos. Alis, nessa faculdade, iria ter a companhia dos amigos 
mais chegados. No prximo final de semana, Vicki e Ronny estariam pegando um avio para a Califrnia. Na noite anterior, eles tinham trazido  sua casa uma boa parte 
dos pertences deles.  que o pai de Selena havia alugado um reboque para transportar a bagagem da filha, e os dois estavam aproveitando para enviar um pouco da sua 
tambm.
      No dia seguinte, sexta-feira, pela manh, Selena, o pai, Wesley e seus dois irmos mais novos, Kevin e Dilton, iriam iniciar uma viagem de dois dias na van 
da famlia, transportando o reboque alugado. No sbado, a me e V May, com quem a famlia morava, pegariam um avio para a Califrnia. Todos se encontrariam em 
San Diego, para a festa do noivado de Tnia.
      - Vou ter de correr, disse Selena para a me, descendo a escada apressadamente. No vou demorar. Se o Paul ligar, diga pra telefonar de novo s 8:00h. Posso 
ir com o carro?
      Sharon ficou parada no alto da escada. A garota virou-se para fit-la, esperando a resposta. A percebeu que agora era a me que estava com ar pensativo. Aquele 
momento de intimidade entre me e filha tinha sido muito breve.
      - Claro, replicou ela afinal. Divirta-se. A chave est no porta-chaves da cozinha.
      Era em ocasies como essa que Selena mais sentia admirao pela me. Parecia-lhe que ela recebera a bno de ter uma excelente memria. Ainda se recordava 
bem dos sentimentos de uma garota de dezessete anos. Sabia o que era ter amigas que, por vezes, vinham antes dos familiares e dos sentimentalismos. No havia dvida 
de que ela entendia tudo isso, pois no procurara segurar a filha para prolongar aquele instante de emoo.
      Selena saiu para o quintal dos fundos, deixando bater a porta de tela. Wesley e o pai ainda estavam tentando arranjar todas as caixas no trailer. Era um verdadeiro 
quebra-cabea.
      - Tem bagulho demais, n? comentou Selena.
      - No  bagulho, no, disse o irmo, corrigindo-a. Depois que voc chegar l  que vai ver como uns simples objetos passam a ser verdadeiros tesouros.
      O pai, que tinha na mo uma lata de refrigerante, tomou um gole. A luz do Sol se refletia em sua cabea, fazendo brilhar as gotas de suor que lhe brotavam 
na testa.
      - O equipamento da banda do Ronny  que no est cabendo direito, explicou ele.
      - Mas ele disse que se no desse, poderia deixar, no disse? comentou a garota.
      Ronny e alguns amigos tinham formado uma banda, que havia praticamente se desintegrado durante as frias. Selena sabia que ele queria levar o equipamento apenas 
porque este lhe pertencia. Na verdade, no iria precisar dele.
      - Quero dizer, continuou, se no der pra levar, no se leva.
      Selena arregaou as mangas da camisa que estava usando. Na realidade ela no lhe pertencia. Era uma velha camisa branca do pai. Vestira-a de manh, por cima 
da camiseta, quando estava arrumando as malas. Naquela hora, sentira um pouco de frio e a vestira para se agasalhar. Depois, experimentara certo conforto em estar 
com a camisa do pai, e acabara no a tirando.
      - Ns vamos dar um jeito, disse Harold Jensen. Voc talvez tenha de viajar sentada em cima de algumas sacolas, mas vamos levar tudo.
      - Eu vou l na Mother Bear, anunciou a garota, pegando seu cabelo louro, longo e bem encaracolado, e ajuntando-o atrs com uma "piranha", que tirou do bolso 
da camisa.
      Agora se lembrava de que a havia colocado ali pela manh. Instantes atrs, quando sentira calor, passara uns vinte minutos procurando o objeto em sua bagagem.
      -  filha, disse o pai, enfiando a mo no bolso e pegando algumas notas, traga alguns pezinhos de canela para o nosso caf de amanh.
      - Eu tenho dinheiro, pai, replicou ela, batendo de leve na carteira que colocara no bolso traseiro da cala. Eu pago.
      O pai sorriu, fazendo aparecer as rugas que tinha ao redor dos olhos. Ele no precisou dizer nada. A expresso de seu rosto dava a entender o que sentia - 
amava a filha e estava muito feliz com ela,
      A garota virou-se rapidamente antes que a sensao provocada pelo olhar terno do pai "mexesse" com seu corao. Abriu a porta do carro novo da me e deslizou 
pelo assento. Na realidade, era um carro usado, mas era novo para Sharon. Fazia apenas trs dias que tinham vendido o velho fusca que a garota utilizava juntamente 
com a me. Uns sete meses atrs, os pais haviam dado o carro para ela, o que significava que teria de arcar com todas as despesas dele.
      Contudo ela j decidira (at sem nenhuma dificuldade) que no levaria o carro consigo para a faculdade. Ento os pais o "compraram" de volta na mo dela. Agora 
tinha dinheiro suficiente para as despesas do primeiro semestre da faculdade e, assim, no precisaria arranjar trabalho.
      Wesley fizera o mesmo, dispondo do seu, que estava todinho equipado. E ele tambm guardara o dinheiro. Os conhecidos deles que estudavam na Rancho Corona lhes 
haviam assegurado que os alunos "motorizados" sempre davam carona para os colegas. Ademais informaram que o transporte pblico na regio era bem melhor que em outras 
partes daquele estado.
      Enquanto se dirigia para a confeitaria onde trabalhara durante um ano e meio, Selena experimentou outra onda de nostalgia com as recordaes daquele lugar. 
Essa parte da cidade - Hawthorne - se tornara bem conhecida dela. Lembrou-se de fatos que haviam ocorrido ali, alguns agradveis, outros, frustrantes. Recordou-se 
do dia em que V May desaparecera e ela pensara que a av tivera uma de suas crises mentais e saira andando por aquelas ruas. Tinham rodado todo o bairro  procura 
dela. Relembrou tambm o dia em que caminhara rua abaixo at a caixa do correio para postar uma carta meio desaforada para o Paul, dizendo exatamente o que pensava 
dele.
      Ao se recordar disso, um sorriso lhe veio aos lbios. O relacionamento dela com o rapaz havia mudado muito desde o dia em que ele a havia apelidado de "Princesa 
dos Lrios". No incio, ela se sentira insultada. Agora, porm, entendia que era um termo carinhoso. Era assim que Paul a chamava: "Princesa dos Lrios". E sempre 
que ele a tratava desse modo no telefone, Selena experimentava uma agradvel sensao interior.
      Ainda sorrindo, a garota estacionou o carro numa rua movimentada do bairro, a poucas quadras da Mother Bear. Fora mais ou menos ali que, certa vez, ela vira 
Paul passando de carro. Estava chovendo, e ela caminhava pela calada, levando nos braos um buqu de lrios para V May, que convalescia de uma cirurgia. Saiu do 
carro e trancou o veculo. Fora ali, bem ali, que comeara essa "histria" de "Princesa dos Lrios". Ficou parada durante uns minutos, sentindo o intenso calor do 
Sol de vero em seus ombros. Carros passavam velozes para um lado e para o outro. Pessoas circulavam pela rua, entrando em lojas, ou saindo delas. Um rapaz passou 
correndo, fazendo cooper, levando um cachorrinho pela coleira. Selena continuou imvel, procurando guardar na memria todos os sons e imagens. Amanh iria embora 
dessa cidade para iniciar uma nova etapa de sua vida em outro lugar.
      Num gesto instintivo, muitas vezes repetido, pegou a correntinha de prata que lhe pendia do pescoo. Segurou entre os dedos a jiazinha que havia nela - um 
pequenino lrio tambm prateado. Era um presente que Paul lhe enviara por ocasio de sua formatura, em junho. E durante todo o perodo das frias, aquele lrio fora 
seu principal elo com o rapaz.  verdade que recebera algumas cartas, e ele lhe dera alguns telefonemas, mas nada disso tinha a mesma importncia que aquela jia, 
Tratava-se de um presente que viera direto do corao dele para ela. Paul mandara confeccionar o lrio numa joalheria na Esccia. Sempre que o pegava, como fazia 
nesse momento, era como se estivesse de mos dadas com o rapaz. E da a dois dias no teria apenas o contato frio da prata, mas sentiria a mo quente de Paul segurando 
a sua. Da a dois dias, ela o veria pessoalmente, o que no acontecia havia mais de um ano.
      

Captulo Dois
      
      Selena mordeu o lbio inferior e, fazendo um esforo consciente, ps-se a caminhar em direo  confeitaria. Certamente suas amigas j estavam l, esperando-a. 
Fazia vrios meses que ela, Vicki e Amy se reuniam ali, uma vez por semana. Sentavam-se a uma mesa, bem prximas umas das outras, e abriam o corao, falando em 
voz baixa, como s amigas de verdade conversam. Hoje seria o ltimo encontro das trs, e Selena sabia que ia ser muito triste.
      O sininho da porta de entrada tiniu alegremente, como acontecia todos os dias. A garota calculou que j ouvira esse som milhes de vezes. Contudo era a primeira 
vez que ele fazia brotar lgrimas em seus olhos.
      Piscando rapidamente, virou-se para olhar para a conhecida mesinha junto  janela. Amy e Vicki j se achavam ali, conversando to animadas, que nem notaram 
sua chegada. Aproveitando-se disso, Selena foi direto ao balco. D. Amlia, sua afetuosa patroa, estava acionando a caixa registradora, recebendo o pagamento de 
uma cliente.
      Selena entrou na fila, atrs de uma mulher de cabelo escuro, que segurava um garotinho, equilibrado em seu quadril. A garota sorriu para o pequenino e fez-lhe 
um aceno, movendo o indicador e o dedo mdio. O menino virou o rosto, escondendo-o no ombro da me. Um minuto depois, porm, ainda acanhadamente, voltou a encarar 
Selena, examinando-a com ar srio nos olhos azul-acinzentados. Em seguida, virou de lado de novo e deu um lindo sorriso, a que a garota no pode resistir.
      Que nenm fofinho! pensou. Se fosse meu filho e eu estivesse para lhe dizer "No", e ele me desse um sorriso desses, eu no resistiria!
      Acenou de novo para a criana e abriu ainda mais o sorriso. O garotinho continuou rindo para ela. Nesse momento, a mulher se voltou para ver o que o filho 
estava fazendo. Selena reconheceu-a imediatamente.
      - Jalene! exclamou quase sem pensar.
      A outra fitou-a atentamente, erguendo uma sobrancelha numa expresso interrogativa. Obviamente no a estava reconhecendo.
      - Oi, Jalene! repetiu Selena, sem saber direito o que dizer.
      - Desculpe, falou Jalene num tom frio, acho que no a conheo.
      A moa tinha traos finos, pele morena e cabelo bem escuro, mas no to escuro como quando Selena a vira antes. Contudo ainda exibia o mesmo sorriso felino, 
que a garota notara na primeira vez em que a vira, quase dois anos atrs.
      - , replicou Selena, voc no me conhece. Eu me chamo Selena. Selena Jensen.
      Jalene continuou com a mesma expresso de quem est confuso. O garotinho em seu colo tambm no sorria mais. Selena soltou uma risadinha nervosa e arrependeu-se 
de ter iniciado a conversa. Agora precisaria explicar tudo.
      - Sou amiga de... quero dizer, conheo o Paul MacKenzie.
      A outra arregalou um pouco os olhos, mas no sorriu.
      - Ele... ... eu o conheci na Inglaterra. Viajei no mesmo avio que ele pegou, quando voltava de l. Tinha ido ao enterro do av dele. Eu a vi no aeroporto, 
quando foi apanh-lo.  por isso que a conheo. Ele me disse seu nome. Disse que voc iria busc-lo l.
      Jalene fitou-a como quem tem uma vaga lembrana. Selena riu de novo, nervosa.
      - Alis, continuou, quando ele lhe ligou de Londres, me pediu dinheiro empestado para telefonar. Ele no tinha moedas suficiente para pr no aparelho. Eu estava 
esperando que ele terminasse para poder telefonar tambm e... foi assim que nos conhecemos.
      Jalene mudou o garotinho para o outro quadril.
      - E agora voc e o Paul esto namorando?
      Selena no sabia como deveria responder a essa pergunta. Ela e o rapaz ainda no haviam definido exatamente que tipo de relacionamento mantinham. Como poderia 
explicar isso para a outra? Calculou que a demora em responder e a expresso facial que involuntariamente fizera j tinham dado a "resposta", antes que dissesse 
algo.
      - Bom, principiou, minha irm  noiva do irmo de Paul. Ento a gente tem uma ligao a.
      - Oh!
      De repente, Selena foi dominada por um forte sentimento de pnico, que no conseguia controlar. Sua vontade era correr para o banheiro e se esconder da ex-namorada 
de Paul, que examinava seu rosto detidamente. Tinha medo de comear a falar de forma irrefletida, e contar at que certo dia fora parar sem querer na faculdade onde 
o rapaz estudara. Nesse dia, vira Jalene num posto de gasolina e, depois, no estacionamento da escola. Ficara a espi-la durante alguns minutos, e fora por isso 
que agora a reconhecera.
      Era muito estranho estar ali, cara a cara com aquela mulher. Afinal ela fora namorada de Paul. E Selena havia orado, pedindo a Deus que ele rompesse o relacionamento 
com essa jovem. E eles terminaram. Depois disso, Paul lhe dissera que a me dele afirmara que Selena fora um anjo, por ter orado de forma to fervorosa pelo problema. 
Ento, nesse momento, literalmente trancou os dentes, para no "confessar" para a outra que fora ela que orara para que os dois terminassem o namoro.
      - Bom, disse Jalene aps um silncio meio constrangedor que cara entre as duas, prazer em conhec-la. Quando estiver com o Paul, diga-lhe que mandei um abrao 
pra ele.
      Selena fez que sim, procurando dar um sorriso bem natural.
      - 'T bom! replicou, e foi s o que disse.
      Jalene acomodou melhor o garotinho em seu quadril e pegou um pacote com pezinhos de canela que D. Amlia pusera sobre o balco. Mais dois fregueses haviam 
entrado na confeitaria, e agora Selena era a primeira da fila. A garota comeou a se virar para a frente, mas sentiu os olhos escuros da outra ainda fixos em seu 
rosto, como que examinando-a demoradamente.
      A mulher no voltou a dar seu sorriso felino, mas o garotinho que carregava compensou a frieza dela. Inclinando a cabecinha, dirigiu a Selena mais um sorriso 
gracioso, quase fazendo derreter seu corao. A garota acenou dando "tchau", mas Jalene virou-se e saiu da loja sem olhar para trs.
      - Veio tomar seu chazinho, querida? perguntou D. Amlia quando Selena se voltou para cumpriment-la. As meninas j chegaram e pegaram o ch e o pozinho.
      - Sim, e quero ch de hortel, se j tiver. Na segunda-feira havia acabado.
      - , mas ontem recebi mais, explicou a patroa. E hoje  por conta da casa. Vicki disse que  a ltima vez que vo se encontrar aqui. Ento resolvi dar-lhes 
esse presente.
      - Ah, que gentileza! exclamou Selena. Muito obrigada! Ah, e vou querer levar uma caixa de doze pezinhos, mas esses eu vou pagar, 't?  para o nosso caf 
amanh cedo, antes de sairmos em viagem.
      - Quando j estiver quase na hora de ir embora, voc me avisa, que vou preparar a embalagem.
      D. Amlia afastou-se um pouco da caixa registradora e pegou um bule de cermica que encheu de gua quente. Selena correu os olhos pelo balco que conhecia 
to bem. Viu o vidro das gorjetas, que ficava sempre ao lado do caixa. Quando viera trabalhar nesta confeitaria, ele j se encontrava naquele canto. Nele estava 
pregado um papel que dizia o seguinte: "Detesta trocados? Deixe-os aqui!" E o vidro vivia cheio de moedas.
      Selena tirou uma nota de $5 dlares de sua pochete e colocou-a dentro do vidro. Aquela plaquinha lhe lembrara o quanto ela temia essa "troca", a mudana que 
estava ocorrendo em sua vida. Contudo aquela gorjeta era o mnimo que poderia fazer por D. Amlia, que tanto fizera por ela. Sabia que no existia no mundo uma patroa 
mais generosa que aquela senhora. E tinha certeza de que nunca encontraria outro emprego to agradvel e com a mesma flexibilidade nos horrios.
      D. Amlia entregou-lhe o bule de ch e uma xcara com o saquinho sabor hortel. A garota agradeceu com um sorriso. Nesse momento se deu conta de que sua lngua 
estava dolorida. Provavelmente a mordera momentos antes, ao conversar com Jalene, quando tentava se conter para no falar demais. Caminhou em direo a mesinha junto 
 janela, procurando mover a lngua e pondo-a para fora, tentando aliviar um pouco.
      - Ah, voc fica muito bem assim! brincou Vicki, olhando para Selena que se aproximava.
      A garota fez uma careta e as outras duas riram.
      Acho que a melhor maneira de iniciar esse nosso encontro  sorrindo, pensou Selena. No sei se estou a fim de despedidas chorosas, que  como isso aqui vai 
terminar!
      - Quem era aquela mulher com quem voc conversou no balco? quis saber Amy.
      Ela era a mais observadora das trs e, por uns momentos, Selena ficou sem saber ao certo o que deveria responder. Contudo a outra fixou os olhos escuros nos 
seus olhos azuis, parecendo "atrair" seu esprito para o aconchego daquela mesinha, onde ningum conseguia guardar segredos.
      Tranquilamente, Selena se sentou e colocou o saquinho de ch na gua quente. Sentiu que Vicki tambm a fitava, aguardando uma resposta. Embora Amy fosse uma 
jovem que chamava a ateno por ter cabelo bem escuro e ondulado, e um rosto nitidamente italiano, Vicki era ainda mais bonita. Na verdade, era linda. Tinha cabelo 
castanho, longo e sedoso, que usava partido ao meio. Seus olhos eram verde-claros e pareciam duas pedras preciosas engastadas num rosto perfeito. Selena j se sentira 
intimidada por ambas as garotas, que lhe dirigiam olhares penetrantes. Sabia que, quando erguesse o rosto agora, teria de novo a mesma sensao. Ento permaneceu 
com a cabea baixa.
      Derramou um pouco de ch na xcara e ficou a olhar seu prprio reflexo na superfcie do lquido fumegante.
      - Era Jalene, a ex-namorada do Paul.
      -  mesmo? indagou Vicki.
      - Por que ser que isso foi acontecer com voc justo agora, Selena? comentou Amy. Quero dizer, que coincidncia voc se encontrar com ela hoje, exatamente 
quando est para se reencontrar com ele!
      - ... sei l! replicou a garota, erguendo os olhos.
      Seu pai estava sempre lhe fazendo alguma gozao, quando lhe acontecia algo meio inusitado. Ele dizia:
      "S voc, Selena! S voc!"
      Agora parecia que Amy tambm pegava o mesmo refro.
      - Nada se d por acaso, disse Vicki, filosofando. E ns j dissemos isso aqui, nesta mesa. Conosco esto sempre ocorrendo "coisas de Deus". Todos os dias. 
E no momento em que acontecem, no sabemos a razo.
      Amy inclinou-se para a frente, aproximando-se mais de Selena.
      - Ser que Deus queria que voc soubesse que ela se casou e tem um filhinho, principiou em voz baixa, para voc contar isso ao Paul? Assim ser mais fcil 
para ele esquecer-se dela.
      - Acho que ele j esqueceu, replicou Selena. H muito tempo. Ele nunca mais falou sobre Jalene.
      - Mas por que ele falaria? interveio Vicki.
      - Ela perguntou pelo Paul? quis saber Amy.
      - No; perguntou no. Mas mandou um abrao pra ele.
      - Ento ela sabe que vocs esto namorando, disse Amy.
      - No, na verdade, no. Quero dizer, eu no disse isso pra ela.
      - Por que no?
      Selena olhou para Amy e depois para Vicki, e deu de ombros.
      - Porque na realidade ainda no sei se estamos namorando. Quero dizer, ainda no ficou nada definido.
      - , mas no sbado, quando vocs se encontrarem, certamente vai ficar tudo acertado, comentou Amy. E voc sabe que estou chateada de no estar l pra saber 
de tudo em primeira mo.
      Selena experimentou outra vez a mesma onda de tristeza que sentira a tarde toda. Vicki estaria com ela na faculdade. Alis, seriam colegas de quarto. Amy, 
porm, no iria para a agora. Havia enviado o requerimento de matrcula, mas no poderia iniciar os estudos de imediato, porque no tinha recursos financeiros. Os 
pais dela haviam se divorciado recentemente, e alm disso, quando fizera petio para receber uma bolsa de estudos, o prazo j havia expirado. No incio as trs 
tinham ficado bem empolgadas pela perspectiva de estudarem juntas. Agora, porm, o fato de Amy no poder ir com elas estava deixando-as muito tristes. Afinal a amiga 
decidiu que iria fazer algumas disciplinas isoladas numa faculdade local e trabalharia o mximo que pudesse no restaurante do tio, para ajuntar o dinheiro necessrio. 
Assim, calculavam, no semestre seguinte ela poderia ir para a Rancho Corona.
      - Ento, continuou Amy, assim que puder, voc tem de me ligar ou mandar um e-mail me contando tudo.
      Selena percebeu que a colega se esforava para se controlar e aceitar a situao com calma e coragem.
      - Na semana que vem, eu ainda vou estar aqui, interveio Vicki. Pelo menos nos primeiros dias. Ento, assim que Selena ligar, voc me telefona e conta tudo, 
o.k.?
      Amy fez que sim, com ar de quem est se controlando. Vicki deu uma olhada rpida para Selena, que no conseguiu se conter mais. Seus olhos j estavam cheios 
de lgrimas. E sob a fora da lei da gravidade, elas escorreram por seu rosto. Durante alguns minutos, as trs amigas ficaram chorando juntas.
      

Captulo Trs
      
      No dia seguinte, Selena achou at agradvel j estar em viagem. O rudo constante dos pneus rolando na pista lhe lembravam que a fase das despedidas se encerrara. 
Agora achava-se a caminho de San Diego, onde encontraria com Paul. Podia deixar aquela tristeza para trs e se concentrar nos maravilhosos eventos que viveria nos 
prximos dias.
      Na verdade, porm, o que ela mais queria era dormir. Ficara acordada boa parte da noite, embora no houvesse planejado isso. Depois que as trs amigas terminaram 
seu bate-papo na Mother Bear, tinham decidido ir para a casa do Ronny. Quando l chegaram, encontraram outros colegas ali. Ento ficaram um bom tempo sentados, conversando. 
Olhando o anurio escolar do Ronny, recordaram os bons momentos passados no Colgio Royal. Muitos falaram do quanto haviam trabalhado durante as frias, queixando-se 
das longas horas. Selena concordou. Na verdade, se pudesse comear tudo de novo, iria trabalhar menos. Pelo menos no se ofereceria para "cobrir" as frias de todos 
os colegas, como havia feito. A, teria podido se divertir um pouco mais, como, por exemplo, fazer um acampamento com a turma de jovens da igreja. Alis, fizera 
isso nas frias anteriores.
      E aquela festinha improvisada para comemorar o fim das frias acabou seguindo noite adentro. Selena ligou para os pais, pedindo permisso para passar da hora 
de chegar em casa. A me deu a licena e lhe comunicou que Paul no havia telefonado. Ento a garota se convenceu mesmo da que no tinha nenhum motivo para voltar 
cedo para casa. Mais uma vez, Sharon Jensen se mostrava compreensiva, entendendo o quanto aqueles momentos de despedida eram importantes para a filha.
      Quando afinal Selena saiu da casa do Ronny, j havia abraado os amigos, chorado e se despedido inmeras vezes. Agora s queria ir para casa e cair na cama. 
Chegando em seu quarto, porm, encontrou no travesseiro um bilhete do pai, avisando-a de que iriam sair bem cedo no dia seguinte. E de fato, s 4:00h da manh j 
estavam partindo. E, contudo isso, havia dormido bem pouco.
      Agora, ento, na estrada, queria tirar um cochilo e recuperar o sono atrasado. O balano da van contribuiu para ela relaxar, mas os dois irmos menores, no. 
Kevin e Dilton s ficaram quietos na primeira hora da viagem. Quando o pai parou em Eugene para irem ao banheiro, eles acordaram e no dormiram mais. Nesse instante, 
os dois meninos, com sete e nove anos de idade, estavam totalmente acesos e mantendo os outros despertos.
      Selena ajeitara uma "caminha" para ela no banco de trs com as bolsas de viagem que estavam por ali. E o que ela gostaria naquele momento era de ter algo para 
enfiar nos ouvidos, para no escutar o barulho que os dois faziam. Ela e Wesley j haviam feito esse mesmo trajeto, alguns meses antes. Tinham visitado a Universidade 
Rancho Corona com Vicki, Amy e Ronny, com o objetivo de conhecer a escola. E como aquela viagem fora diferente! Fora uma experincia totalmente nova.
      A garota estava cada vez mais desejosa de comear a vida por sua conta na companhia das colegas, e longe dos irmozinhos. No sabia ao certo se deveria dar 
lugar ao sentimento de culpa que a dominava por ter tal desejo ou se isso fazia parte da vida adulta.
      Tentando dormir, mas com um sono agitado, Selena procurou acalmar suas emoes, que se achavam um tanto descontroladas. De um fato tinha certeza: no dia seguinte, 
quando chegasse a San Diego, precisaria estar bem equilibrada emocionalmente.
      E afinal conseguiu descansar durante boa parte da viagem. No teve um sono profundo, nem se sentia confortvel, mas ficou quieta no seu canto, fingindo que 
dormia. Por vrias vezes, Kevin e Dilton lhe suplicaram que participasse de um joguinho com eles, mas ela se recusou. A certa altura, Wesley passou o volante para 
o pai e pediu  irm que trocasse de lugar com ele. No sem certa relutncia, ela concordou. Contudo, em vez de ficar conversando com o pai, encostou o travesseiro 
na janela do carro, ajustou o cinto de segurana e tentou dormir.
      Parecia estar dormindo, mas na realidade estava pensando em Paul e "sonhando" com ele. No segundo dia,  tarde, ela decidira que, assim que o visse, iria correr 
para ele e abra-lo, sem se preocupar com quem estivesse por perto. Assim, pensou, estaria expressando seus verdadeiros sentimentos pelo rapaz. E no deveria se 
reprimir. Passou e repassou mentalmente os vrios detalhes da cena. Que roupa deveria usar? O que Paul estaria fazendo quando ela o visse? Quem estaria por perto?
      Em alguns momentos - mas foram poucos - ela detectou como que uma "luzinha vermelha", de um sinal de alarme em sua alma. Mais ou menos um ano antes, ela havia 
se deixado levar por devaneios com relao ao rapaz. Lera "nas entrelinhas" das cartas dele algo que ele na verdade no dissera. Agora, porm, era diferente. H 
pouco tempo, ele lhe dera uma correntinha com uma jia. Ele criara um apelido carinhoso para ela. Dissera que estava ansioso para rev-la. No tinha dvida de que 
agora no estava tendo uma viso irreal do relacionamento deles. Tinha certeza de que, se corresse para ele e o abraasse, no estaria fazendo nada de mais.
      A certa altura, quando estavam presos no trfego pesado de Los Angeles, o ar condicionado do carro pifou. Abriram as janelas, mas receberam o ar abafado e 
poludo daquela tarde quente. Trs minutos depois, estavam todos encalorados e irritados.
      Harold Jensen entrou num posto de gasolina, onde ficaram quarenta minutos tentando consertar o defeito. No conseguiram. Na oficina do posto no havia condies 
para isso.
      - Temos de seguir em frente, disse o pai. Acho que teremos de aguentar a viagem sem o ar condicionado. Vamos fazer de conta que somos "pioneiros" *.
      - Pioneiros? repetiu Selena, questionando a idia. Reconhecia que no estava colaborando muito com os outros, pois no se esforou para melhorar o humor em 
meio a essa situao desagradvel. Entretanto teve de admitir para si mesma que, se fossem seus amigos que estivessem ali, certamente iria procurar ter uma atitude 
positiva e tentar reanimar os outros. Ao enxergar esse fato, ficou aborrecida e ainda mais irritada.
      Acomodou-se em seu cantinho, no banco de trs, insistindo para que deixassem aberta a janelinha da frente, embora uma delas estivesse batendo muito.
      - No d pra fechar no, dizia. Est quente demais. Se vocs a fecharem, vou morrer sufocada aqui atrs.
      Tentou dormir. Era simplesmente impossvel. Sentou-se e procurou posicionar-se de forma que o vento desse direto nela. Tambm no adiantou. O trfego estava 
to intenso na rodovia que eles s conseguiam rodar a uns quarenta quilmetros por hora. Indo to devagar, era impossvel haver uma brisa.
      Selena estava aflita para que chegassem ao destino. J bebera a ltima garrafa de gua que havia na caixa de isopor e agora pedira a Kevin que lhe passasse 
um pouco de gelo. Inclinou-se sobre o encosto do banco da frente, esperando que o irmo lhe entregasse os cubos. Queria pass-los no pescoo para se refrescar um 
pouco. O garoto remexeu na caixa, que estava no cho do carro, junto ao assento dele. Pegou algo e virou-se para Selena, girando o brao bruscamente na direo dela.
      - Voc pode tomar isto, disse.
      Era uma lata de refrigerante, a ltima que havia ali. Contudo, no mesmo instante em que ele estendeu o brao para Selena, ela fez um movimento para a frente. 
Inesperadamente, ele bateu a mo com a lata no rosto da garota, atingindo um ponto logo abaixo do olho esquerdo, bem na ma da face.
      Ela soltou um grito, e o pai imediatamente pisou no freio. Wesley se virou para trs, tentando ver o que acontecera, e procurou assumir o controle da situao. 
Disse ao pai que seguisse em frente, a irm, que parasse de gritar, e ao menino, que se sentasse e colocasse o cinto de segurana.
      - Foi sem querer! Foi sem querer! repetia o garoto.
      - Eu sei! berrou Selena.
      No tivera a inteno de gritar com o irmo, mas, com a dor que sentia, mais a idia de que iria ficar com o olho roxo, era impossvel responder com calma.
      - Ela sabe que foi sem querer, Kevin, disse Wesley em tom tranquilo. No fique preocupado, no. Voc no fez nada errado. Estava at sendo legal, dando pra 
ela a ltima lata de refrigerante que tinha a. 'T tudo bem.
      Apesar das palavras do rapaz, Kevin se ps a chorar, como se tivesse sido ele que levara a pancada. Selena tambm chorava, mais por um sentimento de frustrao 
do que de dor. A essa altura, o rosto comeara a latejar, e ela sabia que iria ficar com uma marca arroxeada.
      Essa  boa! Muito boa! pensou, sentindo os olhos arderem com as lgrimas. Estou maravilhosa para me encontrar com Paul! No acredito que isso aconteceu comigo. 
Vai, papai! Fale! "S voc, Selena! Esse tipo de coisa s acontece com voc"!
      O pai no disse nada. Estava tentando passar para a pista do lado, mas no conseguia. Selena olhou-o no retrovisor e viu que ele tinha uma expresso de irritao. 
Wesley estava com um pedao de papel na mo e ia lhe dizendo onde era para virar. A garota compreendeu que o melhor a fazer, naquele momento, era relaxar no banco 
e procurar no criar mais problemas pra ningum.
      Suspirou fundo e pegou a lata que cara no banco. Chegou-a ao prprio rosto, na esperana de que o contato frio reduzisse um pouco o inchao. Instantes depois 
se dava conta de que, por ironia, estava se sentindo bem mais refrescada. A lata estava mesmo muito gelada; e quase a incomodava no contato com a pele. Com isso, 
mais o fato de que o nvel da adrenalina j descera, sentiu-se mais tranqila.
      - Kevin, principiou ela em voz calma.
      O irmo se virou para trs, ainda meio tenso, e a fitou com os olhos cheios de lgrimas. Por uns instantes, ela se lembrou do garotinho que vira no colo de 
Jalene, na confeitaria. A sensao de frustrao que Selena sentia acabou se desfazendo totalmente.
      - No fique triste, no, Kevin, disse. Sei que voc no fez por querer. Wesley tinha razo. Voc estava sendo at legal comigo. Foi s um acidente. Ento, 
no fique chateado mais no, o.k.?
      - O.k., respondeu o menino, acenando afirmativamente.
      Dilton, que observara toda a cena com o interesse de quem assiste a um acidente, entrou na conversa.
      - Deixe eu ver seu rosto?
      Selena afastou a lata. Sentia que a plpebra inferior estava inchando, apesar da compressa fria. Alguns anos antes, ela dera um encontro com um faxineiro 
que varria um salo num aeroporto. Na ocasio, tambm estivera com uma lata de refrigerante na mo. Agora sabia como o pobre homem se sentira quando ela se aproximou 
dele para ver se o machucara.
      - Est saindo sangue, disse Dilton, fazendo uma careta.
      Selena passou um dedo no local e constatou que, de fato, estava sangrando. Era s um pouquinho. E parecia que o cortezinho j havia se fechado. No era nada 
de assustar; nem precisaria levar pontos.
      - Tem nada no, disse ela, voltando a colocar a lata sobre o machucado que latejava.
      - Tem sangue na sua camisa, anunciou Dilton.
      Selena olhou para a roupa e viu que, realmente, ele tinha razo. A camiseta branca, que ela guardara para vestir nesse dia e se apresentar arrumadinha quando 
se encontrasse com Paul e o abraasse, estava respingada de vermelho no lado esquerdo. Parecia que um passarinho tonto enfiara as patinhas numa tinta vermelha e 
depois pisara nela.
      Calmamente, a garota fez uma anlise da situao. Ou, pelo menos, tentou pensar nela com calma. Pelos seus clculos, ainda faltavam umas duas horas para chegarem 
a San Diego. Assim, o inchao do rosto poderia diminuir um pouco. Na certa, tambm, ainda iriam parar em algum lugar para pr gasolina. Provavelmente um deles talvez 
precisasse ir ao banheiro. Ento iria pedir ao pai para abrir o porta-malas, para ela tirar uma camisa limpa na sua sacola. A que estava dentro do carro continha 
apenas as roupas que haviam usado nesses dois dias de viagem.
      Nesse momento, lembrou-se de que, infelizmente, no poderia mais pedir  me para lavar a camiseta manchada. Agora ela mesma teria de cuidar da prpria roupa. 
Esse pensamento lhe trouxe outra onda de tristeza e deixou-a mais pensativa. E com isso, teve a sensao de que a dor do rosto piorou.
      De repente, sem que Selena esperasse, o pai saiu da rodovia. Provavelmente iria passar num posto. Assim que parasse, iria pedir-lhe para abrir o porta-malas. 
O problema  que ele no parou de imediato. Entraram em um bairro residencial, e Wesley continuou lhe dando orientaes, apontando para um lado e outro. Afinal chegaram 
em frente a uma casa grande, de telhado azul, com uma longa rampa. Ali o pai parou o carro.
      - Chegamos! disse ele, sorrindo para a filha, no espelho retrovisor.
      

Captulo Quatro
      
      - Como "chegamos"? indagou a garota com voz estridente.
      Afastando a lata do rosto, ela fitou o pai com olhos arregalados.
      - Aqui no  San Diego. At onde sei, a famlia do Paul no mora numa casa grande  beira-mar.
      O Sr. Harold virou-se para examinar o ferimento da filha. Ao v-lo, contraiu levemente a musculatura do rosto, levando a garota a se preocupar um pouco com 
o machucado.
      - Aqui  a casa dos pais da Lindy, explicou ele em seguida.
      Os trs irmos de Selena j haviam sado do carro e caminhavam em direo  porta da entrada.
      - Lindy? repetiu ela, recolocando a lata no rosto.
      - Lindy MacKenzie, a me de Jeremy e Paul. Voc no ficou sabendo o que combinamos para este final de semana?
      Selena abanou a cabea.
      - Os pais da Lindy ofereceram para nos hospedarmos aqui e fazermos a festa de noivado. A casa deles  maior do que a dos pais de Jeremy. Assim no precisaramos 
ir para um hotel.
      - E quanto tempo vamos ficar nesta casa? quis saber a garota, sentindo-se meio perdida com relao  programao da famlia para o final de semana.
      - Olha, neste momento, o Jeremy e a Tnia devem estar no aeroporto, pegando sua me e V May. Vamos passar essas duas noites aqui. Hoje vamos ter um jantar 
para as duas famlias. Amanh haver uma recepo na igreja do Pr. MacKenzie, em San Diego. Na segunda-feira, vamos levar voc e Wesley para a Universidade Rancho 
Corona e deix-los acomodados l. Voc no se lembra de que conversamos sobre tudo isso?
      A garota abanou a cabea de novo.
      - Deixe-me ver como est seu olho.
      O pai se inclinou para ela e fez um rudo com a lngua nos dentes, como quem no gosta do que v.
      - Vamos entrar e ver se arranjamos uma compressa mellhor, disse ele. Vai ficar com uma marca horrvel.
      - Ah, essa e tima! resmungou Selena.
      Ergueu-se para sair, desgrudando do assento as pernas suadas. Saiu do carro pisando nas sacolas. Pelo menos, do lado de fora, estava fresco. Soprava uma brisa 
suave que vinha do mar. Teve uma sensao agradvel ao esticar o corpo. Contudo, quando lembrou que iria se encontrar com Paul, sentiu um pouco de medo, constrangimento 
e nervosismo. Deu uma olhada para a porta da casa, que estava fechada. Ao que parecia, os irmos j haviam entrado. Ser que, a essa altura, Paul j sabia que ela 
se achava ali e esperava que chegasse  entrada para ir receb-la? Qual era o problema de ele vir encontr-la a meio caminho, ou mesmo ali no carro? Como ela poderia 
correr para ele e abra-lo, se ele prprio nem sara da casa? Por outro lado, porm, que graa teria correr para ele, segurando no rosto uma lata de refrigerante 
para esconder o olho roxo? Talvez fosse melhor mesmo que o rapaz tivesse ficado em casa. Era possvel que l dentro o ambiente estivesse um pouco mais escuro. Assim 
as manchas de sangue na roupa no ficariam to horrivelmente visveis.
      Selena e o pai caminharam at a entrada e tocaram a campainha. A garota ficou com a cabea abaixada. Ps-se a olhar para um grande vaso de planta que havia 
junto  entrada. Nele havia umas flores de cor amarelo berrante, e uma florzinha azul com cachos, que caa pelas beiradas.
      A porta se abriu, e uma senhora alta apareceu. Tinha cabelo branco, cortado bem curto e muito bem penteado, e usava uns culos de aro azul-claro. Examinando-a, 
Selena constatou que era mais velha que sua me, porm mais nova que V May. Usava um bracelete dourado, que tilintou com um rudo alegre quando ela estendeu o brao 
indicando-lhes que entrassem.
      - Entrem, entrem, por favor, disse. Os garotos j quiseram ir logo para os fundos da casa, para apreciar a vista. Acho que voc ainda no me conhece, Selena. 
Sou Catherine, a av do Jeremy. Pode me tratar s de Catherine.
      A mulher sorria, exibindo dentes muito brancos. No eram perfeitos, mas eram lindos, pelo fato de serem alvos. Parecia jovem, para uma av. Selena nunca poderia 
imaginar sua V May dizendo a algum para cham-la de "May".
      - Como foram de viagem, Harold? indagou ela, fazendo um aceno para que se dirigissem para a sala.
      O pai de Selena seguiu na direo indicada, e a garota foi logo atrs. Dois fatos comearam a inquiet-la. Primeiro, ela estar segurando uma lata de refrigerante 
no rosto, e a mulher nem perceber. Segundo, cad o Paul?
      - Sentem um pouco a, disse Catherine. Posso lhes servir algo para beber ou...
      E a ela se interrompeu. Parecia que afinal notara que Selena tinha uma lata de refrigerante na mo, mas no o estava tomando. A garota afastou-a do rosto, 
mostrando o machucado.
      - Oh, menina! exclamou a senhora. Venha aqui na cozinha comigo. Vamos arranjar uma bolsa de gelo para colocar a. Puxa! O que foi que aconteceu?
      Felizmente, o pai acompanhara as duas at a cozinha e explicou o sucedido. E ele prprio se encarregou de arrumar uma compressa gelada. Sugeriu que pegassem 
um pacotinho de ervilhas congeladas e o embrulhassem num pano de prato. Para Selena, foi bem melhor que uma lata de refrigerante. 
      - Cad o resto do pessoal? indagou Selena, tentando falar num tom bastante natural e assumindo um ar tranqilo, com a "compressa" de ervilhas congeladas ocultando 
metade do seu rosto.
      - Meu marido est l fora com seus irmos. Tnia e Jeremy foram ao aeroporto para pegar sua me e sua av. E Paul deve chegar com os pais dele pouco depois 
das 6:00h. Ele teve de trabalhar hoje, e se no pegarem um trnsito muito intenso, acho que poderemos jantar s 6:30h.
      Catherine dirigiu um olhar compreensivo para Selena.
      - Vou lev-la ao quarto de hspedes, onde voc e Tnia vo ficar. Talvez queira descansar um pouco e tomar um banho...
      Ela falou com tanta simpatia, que Selena sentiu que comeava a gostar dessa av de Paul. Depois do que ele falara sobre a av que morava na Esccia, com quem 
ele passava os finais de semana e que racionava o aquecimento, era difcil crer que a "outra av" fosse uma senhora assim: elegante, gentil e graciosa.
      Selena aceitou a sugesto de ir para o quarto, e Catherine a conduziu at l. Assim que a dona da casa saiu, fechando a porta, ela foi direto ao banheiro, 
para examinar o olho. Estava horrvel mesmo. E no dava para disfarar. Ia ter de se armar emocionalmente para suportar todas as piadinhas, com o pessoal chamando-a 
de "Rocky, o lutador".
      Os objetos de Tnia j estavam ali, nos devidos lugares. Selena pensou se a irm se importaria se ela pegasse uma camiseta sua emprestada. Depois que a outra 
visse o que lhe acontecera, certamente no se incomodaria. Sabia o quanto Selena se interessava por Paul. Com toda certeza iria querer ajud-la ao mximo para que 
seu encontro com o rapaz transcorresse da melhor maneira possvel.
      Contudo, julgando pelo bom senso, decidiu no tocar em nada de sua irm. Viu um despertador sobre a cmoda. Eram 3:30h. Ainda faltavam duas horas e meia para 
o Paul chegar. Talvez o melhor a fazer fosse deitar naquela cama to convidativa e deixar a compressa gelada "trabalhar" no inchao do rosto. Assim que Tnia chegasse 
iria pedir-lhe uma roupa emprestada. Se ela dissesse que no, ento lhe pediria que fosse com o pai pegar uma sua na bagagem. Pelo visto, a situao estava se resolvendo. 
Talvez seu encontro com Paul no fosse ser to desastroso afinal.
      Estendeu-se na cama - de casal, bem grande - e sentiu que poderia cair logo no sono, to confortvel era ela. Ali estava livre das incmodas sacolas de viagem 
sobre as quais dormira nas ltimas noites. Instantes depois, caa num sono deliciosamente profundo.
      Acordou com Tnia que a sacudia levemente, chamando-a com a pergunta mais idiota do mundo.
      - 'T dormindo, Selena?
      - Estava, resmungou a garota, fazendo fora para abrir os olhos e tentar descobrir onde se encontrava.
      No conseguiu abrir totalmente o olho esquerdo. Foi ento que se lembrou de tudo.
      - Isto aqui  seu? indagou Tnia, segurando o pacote ervilhas, j descongelado, que cara ao cho.
      - Ai! gemeu Selena, sentando-se.
      - , deve estar doendo mesmo, comentou Tnia, aproximando-se mais para examinar o olho inchado. Por que ser que esse tipo de situao s acontece com voc, 
Selena?
      - No comece, Tnia. J no estou de muito bom humor.
      A jovem se endireitou, colocando a mo na cintura. Sem dvida, era muito bonita, mesmo quando fingia que estava ofendida, como naquele momento. Fazia um ano 
j que trabalhava como modelo profissional. Com isso, alm de j ser bela, adquirira certa graciosidade. Nesse perodo, ela mudara sua aparncia diversas vezes, 
inclusive trocando a cor do cabelo. Usara todos os tons possveis. Hoje, porm, ela deixara ao natural, com a mesma fisionomia da infncia. O cabelo tinha um tom 
louro-escuro, e no rosto, pouca maquiagem. Mesmo assim estava linda. Selena sentiu de novo a velha tenso que experimentava sempre que se lembrava de que era a irm 
mais nova da lindssima Tnia. Sempre achara que ficava em segundo plano perto da outra. E o olho roxo s servia para intensificar ainda mais as recordaes da infncia, 
quando tinha aquele jeito de menino. Nesse momento, sentia-se mais como uma garota de onze anos do que como uma jovem que estava para iniciar a faculdade. 
      - Mas a gente pode dar um jeito nisso, interveio Tnia em voz suave, porm ainda com uma ponta de irritao. Tome um banho, que depois vou fazer uma maquiagem 
em voc. Sei de alguns truques que podem disfarar esse inchao.
      - No tenho roupa limpa.
      - Pode usar uma das minhas. O que voc quiser, replicou a irm.
      Selena hesitou um pouco, antes de aceitar a orientao da outra.
      - Mame e V May chegaram? indagou.
      - Chegaram. V May est tirando um cochilo. O Paul deve chegar com os pais dele daqui a uma hora, mais ou menos. Ento  melhor voc andar rpido.
      Reanimada pelas palavras da irm, Selena comeou a se apressar. Dirigiu-se para o banheiro, mas, antes de entrar, virou-se e deu um sorriso gracioso para Tnia, 
o que provocou uma leve dor no olho.
      - Obrigada, Tnia, disse. Parabns pelo noivado e tudo o mais.
      A jovem tambm sorriu. Pela expresso do rosto, parecia demonstrar que era uma mulher apaixonada, e nada que acontecesse poderia estragar seu humor; nem mesmo 
o fato de sua irm mais nova estar com um olho roxo.
      

Captulo Cinco
      
      Selena tomou um banho rpido. Comeava a ficar ansiosa com relao  chegada de Paul. Tnia foi muito legal, oferecendo-se para arrum-la para o evento. Voltou 
ao quarto enrolada numa toalha. Sua me estava sentada na beirada da cama.
      - Oi, me! disse a garota, sentindo seu humor melhorar. Como foi de viagem?
      Sharon Jensen olhou a filha demoradamente.
      - Muito bem, respondeu. Pelo visto, a nossa foi bem mais tranquila que a de vocs. Kevin me contou o que aconteceu. Foi uma pena, querida. E ele disse que 
voc lhe falou para no ficar chateado com o sucedido. Foi muito bom voc ter falado isso.
      - Foi um acidente, comentou a garota, arrumando a toalha no corpo e pensando que seria bom ter um robe para vestir.
      Ali no quarto estava bem mais frio que no banheiro, e sentiu arrepios no brao.
      - Vou fazer uma transformao maravilhosa nela, anunciou Tnia, passando pela irm e entrando no banheiro, com um estojo de maquiagem na mo. Primeiro, temos 
de resolver o que voc vai vestir, porque a partir da vou ver quais os tons que vou utilizar.
      - Os tons? repetiu Selena, dando um sorrisinho maroto para a me. Tom  o que vocs, modelos, chamam de cor?
      - Claro, replicou Tnia, voltando para o quarto em passos rpidos, mas elegantes.
      Abriu o armrio e tirou um vestido leve. Deu uma sacudida nele como que para estic-lo.
      - Que tal este aqui? perguntou a Selena.
      - Pra mim?
      A garota examinou a roupa com ar de dvida. Era um vestido curto, fino, de corte reto, de cor cenoura, bem claro, com um bordado do mesmo tom em torno do decote. 
Definitivamente no tinha a menor semelhana com as saias longas, tipo "indiana", de que gostava e comprava nos "brechs" de Portland. Era uma roupa apropriada para 
um vero forte, algo que nunca teria atrado a ateno de Selena numa vitrina.
      - Talvez fique curto na Selena, interveio a me.
      De repente a garota mudou de idia. Talvez no ficasse assim to curto, no. Tnia era mais alta que ela. E se sua irmo podia usar um vestido daquele, por 
que no ela? Ademais, estavam na Califrnia, e fazia bastante calor. Com aquela roupa, por certo pareceria mais adulta. Paul era dois anos mais velho que ela, e 
uma vez comentara que ela "precisava crescer". Provavelmente era esse vestido mesmo que deveria usar. E concluiu que, com a ajuda de Tnia e das roupas da irm, 
nessa prxima meia hora, ela iria "crescer".
      - Gostei dele, disse afinal, em tom decidido. Vou vesti-lo.
      - No, disse Tnia, puxando a roupa para si. Ainda no. Primeiro vamos fazer a maquiagem. Aqui, se voc quiser, pode pr este roupo. Comece a secar o cabelo, 
mas no tire o difusor do secador, no, seno vai relaxar o anelado.
      Outra vez Selena olhou para a me com ar maroto.
      - 'T! disse num tom irnico.  bem capaz de isso acontecer... Minha amiga, ser que ainda no entendeu que vou levar essa maldio do cabelo anelado at o 
fim da vida?
      - Preocupa no, replicou a irm, com um sorriso animado. J sei como vou arranjar esses seus cachos.
      - Bom, interps a me, levantando-se, acho que no vou aguentar isso.  duro ver minhas filhas se transformando em duas mulheres lindas!
      -  que a senhora ainda no se acostumou a nos ver assim, nos relacionando to bem, comentou Selena. Me,  a nova fase do relacionamento Tnia e Selena, que, 
alis, est bem melhorado.
      Sharon Jensen parou um instante e ficou admirando as filhas.
      - Amo as duas! exclamou, e saiu do quarto.
      - Aqui, disse Tnia, entregando  irm um vidro com um preparado para o cabelo. Borrife isso no cabelo.  para no ressecar os fios. E anda depressa.
      - Estou andando, estou andando!
      Selena voltou para o banheiro, vestiu o roupo e borrifou o liquido fino sobre todo o cabelo. Em seguida, ligou o secador. Sua irm se aproximou e comeou 
a fazer a maquiagem. A certa altura, Tnia reclamou que o ar quente estava direcionado para o seu rosto. Ento a outra desligou o secador.
      Selena permaneceu sentada, quase imvel, deixando que a outra operasse o "milagre". Tnia trabalhava rapidamente, com jeito de profissional, falando enquanto 
a arrumava, fazendo elogios a Selena.
      - Voc sabe que seus lbios so perfeitos, n? Queria que os meus fossem assim. Sempre tenho de desenhar o formato de "corao" no lbio superior. Sua pele 
est bem clara. Tem passado algum creme?
      - No.
      - Eu sempre tenho umas manchinhas bem aqui no queixo. Parece que voc no tem.
      - As minhas so atrs da orelha.
      - , mas a da pra disfarar, comentou Tnia, dando um passo atrs para admirar melhor o que fizera no olho de Selena. D uma olhada.
      Tnia saiu da frente do espelho, e a garota ficou espantada com sua imagem refletida nele. Estava maravilhosa! A mancha escura desaparecera, e at o inchao 
parecia haver diminudo, pois Tnia aplicara nele uma sombra de cor clara.  verdade que Selena nunca usara tanta maquiagem assim. Contudo seus olhos azul-cinzentados 
se mostravam mais realados. Os lbios tinham uma cor bem forte e pareciam  espera de um beijo.
      - Eu estou... principiou ela, mas interrompeu-se, sem conseguir encontrar o termo adequado.
      - Est linda! completou Tnia. Aqui, tire o excesso de batom com este leno de papel. Sei que voc no usa tanto assim, mas tinha de pr para combinar com 
as sombras que passei debaixo dos olhos. Acho que voc est maravilhosa, e o Paul vai ficar encantado.
      - Tem certeza?
      Tnia acenou que sim e deu uma espiada no relgio.
      - Ah, no! Est quase na hora! Deixe-me arrumar seu cabelo, depois voc pode vestir a roupa. Tenho uma sandlia que combina direitinho com esse vestido. Voc 
tem depilado as pernas, Selena?
      A garota correu a mo pela perna direita.
      - No est muito ruim, no, disse.
      - Ah, Selena, sinceramente, fez Tnia. Eu me depilo quase todos os dias. No entendo como voc consegue ficar com essas pernas cabeludas.
      - No esto cabeludas, no.
      Rapidamente, a jovem passou a mo na perna da irm. 
      - Esto, sim, mas isso agora no tem muita importncia, no. Vamos arrumar o cabelo e depois voc pe o vestido.
      Oito minutos depois, ela terminara, e Selena se postou em frente ao espelho para ver o que achava do resultado final. Tnia erguera o cabelo todo e o prendera 
no alto, deixando alguns cachinhos carem de lado. Usando vrios grampos, ela afixara algumas mechas na cabea. Fizera isso olhando para uma foto numa revista. Disse 
a Selena que, desde que vira aquele retrato, pensara em fazer esse penteado nela.
      A garota teve de reconhecer que estava fantstico. O cabelo se harmonizava com a maquiagem e com o vestido curto. Tudo combinava perfeitamente. E na verdade, 
nada ali estava em excesso. Tnia andava sempre assim, bem arrumada. O que a deixava meio insegura era o fato de no estar acostumada com isso.
      Por uns instantes, pensou em dizer  irm que no queria ficar arrumada daquele jeito. No poderia se apresentada aos pais do Paul, pela primeira vez, mais 
parecendo um "xerox" de Tnia. Tambm no queria se reencontrar com o rapaz com uma aparncia to diferente da que tinha cerca de um ano atrs, na ltima vez em 
que o vira. Depois, porm, lembrou-se de que era um dia de festa para a irm, e ela tivera tanto trabalho para arrum-la desse jeito! Se rejeitasse o que Tnia fizera, 
esta certamente iria ficar chateada. Estava num impasse.
      Deu mais uma olhada para o espelho e acabou se convencendo de que realmente estava muito bem. E estava mesmo. Linda! Ningum iria dizer o contrrio. Talvez 
no fosse to mal assim estar linda pelo menos uma vez, alis, numa noite muito importante.
      - Ser que eles j chegaram? perguntou a irm.
      - No. Combinei com o Jeremy de ele vir avisar assim que eles chegarem.
      - Ele j lhe deu o anel de noivado? perguntou, olhando para a mo de Tnia.
      Nesse momento se deu conta de que j deveria ter feito essa pergunta uma hora antes.
      - No, respondeu Tnia, erguendo a mo esquerda.* Vai me dar hoje  noite, acho. J o escolhemos, mas tivemos de mandar ajustar o tamanho.
      Nesse instante, ouviu-se uma batida na porta. As duas irms, 4spontaneamente, estenderam a mo e se tocaram. Ambas tinham boas razes para ficarem um pouco 
nervosas. Os dois irmos MacKenzie eram de deixar qualquer uma empolgada.
      - Quem ? gritou Tnia.
      - Sou eu, disse Jeremy, ainda com a porta fechada.  s pra avisar que meus pais j chegaram.
      - Obrigada! J estamos indo!
      Tnia examinou o prprio cabelo no espelho e retocou o batom. Ela tambm usava um vestido leve, de cor laranja, bem claro, mas de aparncia muito mais sofisticada 
que o de Selena. Sua sandlia tinha salto um pouco mais baixo do que a que emprestara  irm. Assim, pela primeira vez na vida, as duas estavam quase da mesma altura.
      - Voc est maravilhosa, como sempre, disse Selena.
      Tnia deu um sorriso.
      - Voc tambm, disse. Vamos l. Vamos "enfrentar as cmeras"!
      Selena deduziu que aquilo devia ser alguma gria das modelos. Tnia passou o brao pelo ombro dela e as duas foram saindo do quarto. Selena pensou que talvez 
devesse entrar no "esprito" do momento. Devia sentir-se linda e cheia do autoconfiana. Afinal no estava vestida com sua costumeira bermuda jeans, de bainha desfiada. 
Seu cabelo rebelde no estava todo alvoroado. O horrvel olho roxo fora disfarado. No. Estava arrumada como uma modelo e formava um par perfeito com a irm. Devia 
sorrir para as "cmeras", Entretanto s conseguia pensar numa coisa:
      Acho que estou cometendo um dos piores erros da minha vida!
      

Captulo Seis
      
      Assim que as duas entraram na sala, Jeremy emitiu um comentrio que quase fez com que Selena voltasse correndo ao quarto para desmanchar tudo. O problema, 
na verdade, no foi tanto o que ele disse, mas a expresso de seu rosto. O rapaz indagou:
      -  voc, Selena?
      E a impresso que ele deu no foi de que estava gostando da aparncia dela, mas achando tudo muito engraado. Seu tom era de quem v algo cmico; como o de 
um garoto cuja irmzinha passou o perfume e a maquiagem da me.
      - Ela no est maravilhosa? indagou Tnia, dando a mo para ele e afastando-se um pouco da irm para admirar sua obra-prima.
      Selena pegou o pequeno lrio de prata na correntinha e ficou a gir-lo entre os dedos. Sua irm tentara convenc-la de que a jia no combinava com a roupa 
e que, portanto, deveria coloc-la por dentro do vestido. A garota, porm, queria estar usando-a, toda orgulhosa, para que Paul visse o quanto o presente dele era 
importante para ela.
      - Ah, claro, disse Jeremy aps uma pequena pausa, maravilhosa! Eu nem a reconheci, Selena!
      Foi ento que o pai, a me e Wesley entraram na sala. Olharam para ela surpresos, mas tentaram disfarar um pouco o espanto, com expresses de admirao.
      - Ei, vocs conseguiram disfarar muito bem o arroxeado, comentou Harold Jensen em tom simptico.
      - O que acham do cabelo dela? quis saber Tnia. Vi esse penteado numa revista para noivas e quis experimentar em Selena. Acho que seria legal se todas as minhas 
damas usassem esse penteado, n?
      Selena engoliu em seco e ficou esperando que a "platia" toda terminasse de admir-la. Definitivamente no estava gostando nada de ser a "cobaia" de Tnia.
      - Sabe o que mais? disse. Estou com dor de cabea e acho que  por causa do cabelo preso assim. No leve a mal, no, Tnia, mas vou soltar.
      - Tem certeza de que  o cabelo que est provocando a dor de cabea? Talvez seja do olho. Voc poderia, primeiro, tomar uma aspirina, pra ver se melhora.
      A irm parecia muito aborrecida, mas Selena achava que certas coisas na vida eram mais importantes que os sentimentos de Tnia. No momento - e nesse instante 
ela ouviu vozes de gente se aproximando - seu principal interesse era causar boa impresso em Paul e seus familiares.
      - Vou soltar s um pouco, disse, virando-se rapidamente.
      Ia dirigir-se ao quarto de hspedes, que ficava ao lado da sala, mas no teve tempo. Quando passava pela porta da entrada, esta se abriu e ela se viu cercada 
pelo barulho alegre dos recm-chegados. Tentou abaixar-se e entrar no aposento, mas uma mulher alta, de cabelo escuro e semblante amistoso, pegou-a pelo pulso.
      - Selena? Voc  a Selena?
      Timidamente a garota acenou que sim, sentindo os cachinhos no alto da cabea balanarem. No teve coragem de olhar quem estava atrs da mulher, por receio 
de ser o Paul.
      - Oh, Selena! exclamou a outra. Voc no imagina o quanto eu estava ansiosa para abra-la!
      E assim dizendo, a mulher, exalando um doce perfume de madressilva, passou os braos em torno dela e deu-lhe o abrao mais apertado que ela j recebera na 
vida. Em seguida, afastou-se e encarou-a.
      - Eu sou a Lindy, a me do Paul, continuou. E voc  o anjinho que orou para que meu filho voltasse pra ns!
      Ps as mos em torno do rosto de Selena, segurando-o com firmeza.
      - Voc no faz idia de como gosto de voc! prosseguiu a mulher, com lgrimas nos olhos. E parece que fazemos aniversrio no mesmo dia - 14 de novembro - n?
      De repente, Selena teve a percepo de que a me de Paul no estava se importando muito com sua aparncia. Lindy MacKenzie enxergava era o corao das pessoas; 
e as abraava com toda sinceridade. Diante disso, ficou tranquila, no mais se sentindo ridcula com aquele penteado sofisticado e o vestido justo. O delicioso aroma 
de madressilva da me de Paul passou para ela, e a garota acabou concluindo que iria conseguir encarar bem esse final de semana, acontecesse o que acontecesse.
      Lindy deu outro aperto de leve na mo de Selena, e, com um brilho diferente no olhar, disse:
      - Quero lhe apresentar meu primeiro marido, Robert.
      - Primeiro marido? indagou Selena, estendendo a mo para cumprimentar o Pastor MacKenzie.
      Era um homem de ar calmo e afvel, com cabelo escuro e ondulado, como o de Paul. Usava culos pequenos com armao de metal.
      - Lindy gosta de dizer isso s para ver a reao das pessoas, explicou ele, dando uma piscadela para Selena. Sou tambm o nico marido dela.
      A garota entendeu a piada, embora a achasse meio tola, e acenou para o pastor.
      - Na outra igreja que pastorevamos, interveio Lindy, havia uma senhora aposentada que fez algo muito inusitado. E isso  verdade mesmo. Sabe o que foi? Ela 
morava num prdio onde s havia pessoas da terceira idade. Certo dia, aproximou-se de um homem que residia ali tambm e disse: "Voc se parece muito com meu terceiro 
marido". E o homem replicou: "Terceiro? E quantos voc teve?" E ela explicou: "At agora, s dois". No ms seguinte, eles se casaram. E foi o Robert que celebrou 
o casamento.
      A risada alegre de Lindy ecoou pela sala. Selena se deu conta de que nunca conhecera ningum como aquela mulher. Sentiu que gostava dela.
      O pai chegou at a porta e cumprimentou-os.
      - Essa foi tima! disse Harold Jensen. Oi, Robert! Como vai, Lindy?
      Selena ergueu os olhos procurando algum atrs do Pastor MacKenzie. Talvez Paul ainda estivesse l fora, perto do vaso de planta com os cachos de flor azul 
caindo pelas beiradas. Contudo viu apenas Dilton, alisando um enorme gato rajado. Ouviu Kevin chamar o irmo, a voz vindo do outro lado da casa. Num gesto inconsciente, 
mordeu o lbio inferior. Pensou se talvez no devesse ir l fora,  procura do rapaz. Quem sabe assim poderiam se encontrar s os dois, longe das vistas dos outros. 
 claro que tambm se arriscava a ouvir um de seus irmos fazer um comentrio tolo a respeito de sua aparncia. Isso era a ltima coisa que desejava que acontecesse 
na frente do Paul, principalmente agora que a me dele conseguira elevar um pouco seu humor. Selena nem estava mais preocupada com sua imagem.
       Pastor MacKenzie fechou a porta da entrada e passou  sala de estar.
      - O Paul ainda vem? indagou Selena com a voz ligeiramente nervosa.
      - Ele j chegou, respondeu o pastor. Veio do trabalho para c, no carro dele, para ficar com o veculo  disposio. E ele est estacionado ali na entrada. 
Ento Paul deve estar l nos fundos.
      Foi a que a garota voltou a ficar tensa. Precisava arranjar um meio de ir passando despistadamente por entre aquele pessoal que conversava na sala, para chegar 
ao quintal dos fundos. Dando a volta pelo grupo, entrou no corredor, onde ficava o quarto de hspedes. Passou pelo banheiro e a seguir por dois cmodos cuja porta 
estava fechada. Afinal chegou  ampla cozinha, que era ligada  sala de jantar. Esse aposento tinha janelas imensas, que davam para o mar. A vista era maravilhosa. 
Havia uma rea cimentada, com mesas e cadeiras, adjacente  cozinha. Depois dela, vinha um gramado muito bem cuidado.  esquerda, havia um caramancho branco, do 
qual saa um caminhozinho que ia at  praia.
      Selena encostou-se no balco, perto da pia, tentando ficar mais ou menos escondida, enquanto corria os olhos l fora,  procura de Paul. Dilton estava ali, 
correndo com um taco de croqu na mo, chamando Kevin para jogar com ele. No se via nem sinal de Paul. Contudo Selena se ps a apreciar a cena, espiando as gaivotas 
branquinhas que voavam em crculos pelo cu azul, e admirando a beleza natural do lugar. Nesse momento, percebeu que algum entrou no aposento, s suas costas.
      - Com licena, senhora. Sabe a que horas minha av vai servir o jantar?
      Selena ficou imvel. Conhecia aquela voz grave. Ela a reconheceria em qualquer lugar do mundo. Estava gravada em sua mente desde a primeira vez em que a ouvira, 
perto de um telefone pblico em Londres. Lembrava-se bem de que naquela ocasio , ele dissera:
      "Por favor, ser que voc teria umas moedas para me arranjar? Estou precisando demais."
      Desta vez, porm, ficou sem saber o que responder.
      - Oh! Ah! continuou ele ainda atrs dela. Qu tiempo estu noche es la comida? (A que horas vai ser o jantar hoje?)
      Selena quase caiu na gargalhada. Ao que parecia, ele estava pensando que ela era uma cozinheira que a av contratara para a festa. Virou-se lentamente e, com 
o rosto bem srio, replicou tambm num espanhol "arranhado":
      - Yo no s, seor! (No sei, senhor!)
      O rapaz fitou-a com uma expresso de espanto. Selena se esforou ao mximo para no rir. Ele continuou a fit-la, at que finalmente abriu os lbios num largo 
sorriso.
      - Ol, Paul! disse a garota.
      - Selena? indagou ele com voz sussurrada.
      Afinal ele a reconheceu, apesar do penteado, da maquiagem e do espanhol sofrvel.
      - Selena! repetiu e se ps a rir.
      E assim o grande sonho da garota de ter um encontro romntico com ele acabou sendo um evento prosaico, que a me dele at poderia contar numa reunio social 
da igreja. Ali estavam os dois, no meio da cozinha, a pouco mais de um metro um do outro, rindo a valer. E nenhum deles dava um passo sequer para se aproximar. Era 
um riso nervoso, meio aliviado, meio constrangido. E com isso, Selena concluiu que ele devia estar mais ou menos com as mesmas sensaes loucas que ela experimentava 
naquele instante.
      Por fim, a primeira onda de risadas passou, e a garota recuperou o flego. Deu um passo na direo dele, sentindo-se meio desajeitada com aquela sandlia de 
salto alto no assoalho liso da cozinha. O rapaz, porm, no se mexeu. Ficou parado, fitando-a, com uma estranha expresso. Parecia que ainda no sabia se aquela 
era realmente a Selena ou alguma piada de mau gosto.
      - Sou eu mesma, disse ela, dando de ombros e sentindo o corao pulsar na garganta.
      Paul estava usando uma camisa branca, com as mangas arregaadas, e uma bermuda de cor cqui. Calava sandlia de couro escuro. Seu cabelo castanho ondulado 
estava curto dos lados, penteado para trs. Algumas mechas rebeldes lhe caam soltas,  direita. Em sua testa, apareceram rugas de preocupao. Ele fitou-a demoradamente, 
com seus olhos azul-acinzentados, como que "segurando" o olhar dela no seu. E afinal disse:
      - Oi, Selena!
      Sem saber ao certo o que dizer ou fazer, ela "engoliu" a decepo que sentia pelo fato de seu encontro com Paul no ter sido como num conto de fadas.
      - Oi! respondeu com voz trmula.
      

Captulo Sete
    
      - Ah, que bom! exclamou Lindy MacKenzie, entrando na cozinha com seu jeito ruidoso. Os dois esto a. Ento j se encontraram, n? Que maravilha, no? Eu estava 
esperando esse encontro ansiosamente!
      Ela aproximou-se de Selena e passou um brao em torno do ombro da garota, dando-lhe um rpido aperto.
      - Querem beber algo? Tem um jarro de limonada ali na mesa. Vocs aceitam um pouco?
      Selena no conseguiu responder. No queria limonada. Queria que Paul - e no a me dele - lhe desse um abrao. Queria que ele parasse de fit-la e comeasse 
a sorrir, a sorrir de verdade, demonstrando que estivera esperando esse encontro ainda mais ansiosamente que a me; e que estava muito feliz de v-la.
      Antes que qualquer um deles dissesse algo, o resto do grupo entrou no aposento, conversando animadamente. A me de Selena lhe pediu para ir chamar V May, 
que estava dormindo. Lindy avisou que iriam jantar fora, e no em casa como Paul supusera. Iriam sair dentro de cinco minutos.
      Selena virou-se para ir ao quarto, o que significava que teria de passar perto de Paul. Talvez ele pudesse vir com ela, e assim os dois poderiam se abraar 
no corredor. Todavia, quando olhou para o lado do rapaz, este havia desaparecido.
      Selena foi caminhando em direo ao corredor, com a esperana de que ele j estivesse l, aguardando-a. O lugar estava vazio. Bateu  porta do quarto, chamando 
V May. No ouvindo resposta, abriu-a, dando outra batida de leve. A av estava deitada sobre uma colcha estampada com flores azuis e brancas, tendo apenas um cobertor 
fino nas pernas. Seu cabelo alvo e macio achava-se espalhado sobre o travesseiro, dando a impresso de que ela dormia no meio de uma nuvem. Em seu rosto enrugado, 
estampava-se uma expresso de felicidade. Inclinando-se para ela, Selena tocou-lhe de leve no ombro e sussurrou:
      - V May, est na hora de acordar!
      A senhora piscou vrias vezes e por fim abriu os olhos. Assim que ela fitou Selena, esta percebeu que a av no a reconhecera. Seu olhar estava como que enevoado, 
e a expresso de felicidade desaparecera. Agora seu semblante transparecia irritao.
      - O qu? indagou ela em tom impaciente.
      - V, estamos na festa de noivado da Tnia, e vamos todos jantar fora. A senhora tem de se levantar para ir conosco.
      - Qu?
      A garota repetiu lentamente o que dissera e, em seguida, com gestos vagarosos, foi ajudando a av a se levantar. A senhora girou as pernas, pondo os ps no 
cho.
      - timo! exclamou a garota. Assim que a senhora jantar, vai se sentir melhor!
      - No estou doente, reclamou a senhora em tom irritado.
      - Eu sei que no, mas est na hora do jantar. Ns vamos a um restaurante.
      A garota entendeu que sua aparncia estava deixando a av confusa, j que ela nunca a vira vestida daquele jeito. Alis, at mesmo uma pessoa que no tinha 
problemas de memria como a av poderia ficar confusa. O Paul, por exemplo, pelo visto, no parecera nem um pouco interessado em sua aparncia.
      Selena estendeu o brao para a av. Esta olhou para a neta por uns instantes e depois, ainda meio hesitante, segurou na mo dela, e as duas foram saindo juntas.
      A me de Selena j as esperava no corredor. Olhou para a filha com uma expresso de indagao, querendo dizer: "Como  que ela est? Est lcida?"
      A garota abanou a cabea e baixou os olhos, dando a entender que no. Sua av no estava nada lcida. Quando estava, normalmente ela a tratava por "Queridinha", 
seu apelido de infncia. Entretanto, por alguma razo, nesses momentos de confuso mental, Selena era a pessoa que ela mais reconhecia. Fora por isso que Sharon 
Jensen mandara a filha acordar V May.
      - Ns iremos no carro do Jeremy, explicou ela. Vamos jantar em um restaurante mexicano.
      V May olhou para Selena e depois para a me dela.
      - No conheo nenhum Jeremy. Cad o Paul?
      Selena e a me se entreolharam surpresas. A garota foi a primeira a responder.
      - O Paul est aqui tambm, v. Ele vai ficar muito alegre de v-la.
      A garota no fazia a mnima idia se a av se referia a Paul MacKenzie ou a um filho dela, tambm chamado Paul, que morrera na guerra do Vietn. A senhora 
conhecera o irmo do Jeremy, um ano atrs, quando se achava internada num hospital. O rapaz lhe fizera uma visita inesperada e lhe levara um lrio amarelo, pois 
soubera que era sua flor predileta. Fora nesse mesmo dia que ele vira Selena andando na rua, com um buqu de lrios. Pouco depois ele lhe escrevera uma carta, onde 
a chamava de "Princesa dos Lrios".
      Chegaram ao vestbulo, onde todos os outros j se encontravam. A garota percebeu que a av ficou um pouco assustada com a conversa alta. Olhou para o grupo 
com ar de quem no reconhece ningum, nem mesmo o prprio filho, Harold Jensen, o pai de Selena. E segurou a mo da neta com fora. Juntas as duas foram andando 
pelo meio do pessoal e saram. Assim que estavam do lado de fora, V May deu um suspiro fundo e afrouxou a mo. A garota ficou admirada ao perceber como a mo da 
av era macia, embora a pele estivesse bem flcida no punho e nos dedos angulosos.
      - Mame disse que a senhora vai no carro do Jeremy, falou Selena lentamente, conduzindo a av para a rampa de entrada, onde todos os carros se achavam estacionados, 
um bem junto do outro. A senhora e mame vo com Jeremy e Tnia.
      - E voc tambm, disse logo a av, apertando mais a mo da neta.
      A garota ficou sem saber como iria comunicar  av que seu desejo, ainda no revelado, era ir no carro de Paul. Queria ir sozinha com ele, para que pudessem 
conversar. Ainda no o vira desde que ele desaparecera da cozinha. Todavia j tinha planejado como faria para ir com ele de carro e tambm como se sentaria perto 
dele no restaurante. Sua idia era ficar o tempo todo ao lado de Paul, e no de V May.
      - Mame vai com a senhora, v, disse ela. Todos os outros tambm estavam saindo para a rampa. Selena achava que a qualquer minuto iria virar-se e ver o Paul. 
V May continuava segurando firmemente a mo dela; e ainda conservava o semblante contrado, como quem est confuso.
      - A minha me, principiou a garota devagar, a minha me, Sharon Jensen, vai com a senhora no mesmo carro.
      - Sharon?
      - . A senhora sabe. Ela  casada com seu filho Harold.
      - Ah, fez V May e, aps uma breve pausa, indagou: Hoje  o casamento deles?
      - No, v. Hoje  a festa do noivado da Tnia. Da Tnia e do Jeremy. Ns todos vamos jantar fora, a nossa famlia e a do Jeremy.
      A senhora olhou para o pessoal que agora se encontrava na rampa de entrada. Selena compreendeu que todos estavam atentos a ela e V May, aguardando uma indicao 
sua, para saberem como deveriam agir.
      - A senhora quer ir no banco de trs ou da frente? indagou Selena.
      De repente, V May largou a mo dela e estendeu os braos em direo ao grupo.
      - Oh, Paul! disse ela alegremente. Que bom ver voc!
      A garota olhou para l. Paul se achava atrs dos outros, ao lado do pai, mas deu a volta em torno do grupo e veio para elas com os braos abertos. Ento Selena 
se deu conta de que ele estava vindo abraar sua av, quando ela quisera que ele abraasse era ela mesma. O rapaz aproximou-se, abraou a senhora carinhosamente 
e, ainda sob o olhar de Selena, deu-lhe um beijo terno no rosto.
      V May no deixou transparecer se sabia que aquele era Paul MacKenzie ou se achava que se tratava de seu filho. Selena sentiu ainda mais admirao pelo rapaz, 
pelo modo como agia com sua av. Ele sabia que a senhora talvez estivesse confusa com relao  identidade dele, mas no se importou. Tratou-a com toda a dignidade 
e carinho.
      - A senhora quer ir no meu carro? indagou ele para V May, inclinando-se para fit-la diretamente nos olhos.
      - Ah, claro. Eu gostaria muito de ir com voc e Becky.
      O rapaz deu uma olhada rpida para Selena, que fez um gesto indicando que nem imaginava quem era Becky.
      A me de Selena adiantou-se e disse:
      - tima idia, V May. Vamos todas nos no carro do Paul.
      Em seguida, pegou o brao da filha, conduzindo-a para o banco traseiro do carro azul-escuro do rapaz, enquanto este acomodava V May no da frente. Sharon inclinou-se 
para a garota e sussurrou:
      Becky era a noiva de seu tio Paul. Eles ficaram noivos uma semana antes de ele viajar para o Vietn. Voc talvez at a conhea. Ela se casou com o filho de 
D. Amlia.
      Selena abanou a cabea. No se lembrava de ter visto nenhuma nora de D. Amlia na loja; muito menos uma de nome Becky. Tudo isso era muito estranho, tudo muito 
interligado. Nesse momento, pensou, como j pensara antes, que todas as pessoas se acham to ligadas umas s outras que seria muito bom que ningum ofendesse nem 
desprezasse os outros. Paul, por exemplo, estava agindo de modo excepcional, dando ateno  V May. Dessa forma, ajudava Selena e sua me a contornarem a situao, 
deixando todo mundo mais  vontade. Isso contribuiu para que o rapaz subisse bastante no conceito dela. E at aliviava um pouco a frustrao que sentia pelo reencontro 
dos dois ter sido to desastrado. No aliviava totalmente; s um pouco.
      Enquanto seguiam pelas ruas estreitas da cidade praiana, Selena ia pensando nas manobras que teria de fazer para sentar-se perto do Paul no restaurante. Se 
conseguisse isso, tinha certeza de que poderiam conversar melhor, e a relao dos dois iria tomar um rumo mais agradvel. Durante um ano, eles haviam se correspondido 
e, algumas vezes, se falavam ao telefone, altas horas da noite. Nessas ocasies, era frequente tambm terem oportunidade de dar risadas. Por causa disso, Selena 
comeara a achar que os dois tinham se ligado muito um no outro. Cria mesmo que eram namorados, embora nunca tivessem empregado esse termo para definir seu relacionamento. 
Na verdade, nunca haviam dado nenhum nome para ele. E o nico aspecto inexistente dessa relao era o contato fsico. Selena tinha certeza de que, assim que isso 
acontecesse, o namoro deles iria "deslanchar"!
      Quando afinal pararam no estacionamento do restaurante, a garota j havia arquitetado um belo plano. Iria sentar-se bem pertinho do Paul e, sem que ningum 
percebesse, os dois ficariam de mos dadas, por baixo da mesa. Pensava em ficar juntinho dele e deixar sua mo bem ali perto para que o rapaz, instintivamente, a 
pegasse. Desse modo seria ele quem estaria tomando a iniciativa - mais ou menos. Se esse plano falhasse, tinha outro. Caso ele no segurasse a mo dela, iria colocar 
os dedos sobre os dele, e a ele poderia resolver que posio assumiriam. Depois eles se ajeitariam.
      O plano parecia perfeito. Entretanto, como Selena era inexperiente nessas questes, sentia-se um pouco insegura, sem saber como tudo iria ocorrer de fato. 
Sabia que o mais importante era agir com naturalidade. As recordaes dos momentos que iriam viver em seguida seriam to maravilhosas que acabariam por apagar as 
lembranas do seu desajeitado reencontro na cozinha.
      O problema foi que, em meio a todo esse cuidadoso planejamento, ela se esqueceu de que V May, com seus lapsos de memria, por vezes tinha atitudes imprevisveis.
      

Captulo Oito
      
      Desceram do carro. Antes, porm, que Selena desse alguns passos, V May segurou a mo dela bem firme. A senhora sorria alegremente e nesse momento parecia 
lcida. Em seguida, ela estendeu a outra mo para o rapaz, indicando-lhe que a pegasse. Sharon Jensen ficou parada, esperando os outros, mas V May, Paul e Selena 
foram caminhando de mos dadas pelo estacionamento, em direo ao restaurante.
      A garota deu uma olhadela na direo do rapaz, para ver como ele estava reagindo a tudo isso. Paul tinha o rosto voltado para baixo, espiando algo em seu calado, 
e ao que parecia no notou que ela o olhava.
      Entraram no prdio. Imediatamente V May, toda alegre, ps-se a falar com a recepcionista e com os outros clientes que aguardavam sua vez de serem conduzidos 
 mesa.
      Eles vo se casar! disse, em tom de triunfo, erguendo as prprias mos e, desse modo, levantando a dos dois tambm.
      - Parabns! exclamou a recepcionista.
      - Ns... ... principiou Paul hesitante.
      Deu uma olhada para V May, para Selena, e depois continuou.
      - Viemos para a festa da famlia MacKenzie. Creio que temos uma reserva no salo dos fundos.
      - Ah, sim, para a festa do noivado! Parabns, ento!
      Paul fez um aceno de cabea, agradecendo, para no desagradar V May. Selena notou que o pescoo dele se avermelhara. No viu se o rosto tambm estava vermelho, 
pois ele havia se virado para o outro lado. Contudo a av continuava segurando firmemente a mo dos dois.
      Mais uma vez a garota teve vontade de cair na risada. Provavelmente iria quebrar a tenso criada por essa situao maluca, e o rapaz poderia relaxar. Contudo, 
se soltasse a gargalhada que estava "segurando", V May certamente iria ficar confusa e irritada. Preferiu a atitude que contribuiria para a estabilidade emocional 
da av. Selena se conteve, e "engoliu" a risada nervosa que estava prestes a estourar. Ao mesmo tempo, interiormente, ficou torcendo para que a av no resolvesse 
"anunciar" seu noivado tambm para o resto dos familiares, que nesse momento entravam no restaurante.
      Tentou soltar sua mo da de V May, mas no conseguiu. Do jeito que estavam indo, parecia que a senhora iria ficar sentada no meio dos dois. S de pensar nisso, 
Selena quase entrou em pnico.
      Aquilo lembrava uma dessas comdias malucas da televiso. E o pressentimento de Selena acabou se concretizando. Quando se acomodaram  mesa, V May se sentou 
mesmo entre ela e Paul. No alto, logo acima do lugar de Selena, havia um alto-falante, tocando uma msica mexicana barulhenta. Todos conversavam animadamente, e 
assim ningum percebeu que V May continuou segurando a mo da neta, debaixo da mesa, o tempo todo. Parecia que a senhora se sentia muito insegura naquele ambiente, 
e no queria solt-la por nada.
      De todo modo, Selena constantemente se relembrava de que a festa era de Tnia. Era o dia do noivado de sua irm, que ento seria a "estrela" do momento. E 
ela era mesmo uma estrela - e linda! Volta e meia, os noivos trocavam olhares carinhosos. Duas vezes, ele deu beijinhos no rosto de Tnia. A certa altura, a jovem 
soltou uma gargalhada alegre, com algo que o rapaz lhe dissera. Foi uma risada muito meldica, que Selena ouvira poucas vezes. A garota entendeu que a irm estava 
feliz, maravilhosamente feliz! E isso era o mais importante agora.
      Selena, porm, estava com uma forte sensao de frustrao, uma profunda tristeza pelo fato de nenhum dos seus sonhos ter se realizado. Passara tanto tempo 
aguardando o momento em que reveria o Paul, em que estariam juntos! E agora nada estava acontecendo do jeito que esperava.
      Por que ser que ele no est conversando comigo? pensou, "beliscando" a comida. Se ele quisesse, poderia ter dado um jeito de se sentar perto de mim. Talvez 
nem queira isso. Talvez no sinta por mim o mesmo que sinto por ele. Provavelmente isso tudo no passa de um terrvel engano.  tudo uma piada, e a "boba" sou eu!
      Sentiu a cabea doer. Sabia que, em parte, o problema era o penteado sofisticado. Teve uma vontade imensa de voltar em casa, tirar aquele vestido justo que 
j a estava incomodando. Queria lavar o rosto, desfazer a maquiagem e soltar o cabelo daquela "priso". Depois iria sair pela estradinha que passava pelo caramancho 
e enterraria os ps na areia, deixando as guas do mar fazer ccegas em seus dedos.
      O tempo foi se arrastando. O pai da noiva e do noivo fizeram discursos, dizendo palavras maravilhosas sobre os dois jovens. No dia seguinte,  noite, haveria 
uma grande recepo de noivado em San Diego, na igreja que o pai de Jeremy pastoreava. Hoje, a comemorao era s para as duas famlias, por isso os discursos foram 
bem pessoais.
      Os dois homens prometeram total apoio a Jeremy, que dava esse passo que era to importante na vida de um homem. O pai de Selena se colocou  disposio do 
rapaz para que este o procurasse sempre que precisasse de algo. Recomendou-lhe ainda que, assim como ele agora assumia publicamente um compromisso com Tnia, tambm 
levasse muito a srio essa responsabilidade.
      A seguir, foi a vez do Pastor MacKenzie. Ele se levantou e leu um versculo do livro de Efsios. O texto dizia que os crentes so a esposa de Cristo e relatava 
como este se deu por ela. O pastor mencionou tambm uma tradio hebraica segundo a qual o noivo anunciava publicamente seu amor pela noiva e seu compromisso com 
ela e, em seguida, comeava a preparar um lugar para os dois morarem.
      - Isso  uma belssima figura do que Cristo fez por ns, continuou o Pastor MacKenzie, com sua voz profunda e forte, superando o barulho do alto-falante. Ele 
veio  Terra para declarar seu amor eterno por ns. Ele inclusive se referiu a ns como sua noiva. Depois, retornou  casa do Pai para preparar-nos um lugar. Muito 
breve, um dia desses, ele voltar para nos buscar, para que vivamos com ele eternamente. E enquanto ele no vem, deixou aqui o Esprito Santo, que  a prova de que 
o Senhor tem um compromisso com todos aqueles que crem nele. O Esprito Santo  como um anel de noivado que est em torno de nossa vida.  a garantia de que um 
dia estaremos unidos com ele para sempre.
      Selena sentiu arrepios nos braos. Nunca tinha ouvido essa comparao antes. Agora compreendia que, sendo crente, num certo sentido, era noiva espiritual de 
Jesus. Ele a amava e desejava que ela vivesse para sempre com ele. Essa verdade entrou profundamente em seu corao.
      O Pastor MacKenzie se sentou e Jeremy se levantou. O rapaz parecia um pouco nervoso, mas se mostrava firme. Segurava entre os dedos uma caixinha preta. Virou-se 
para Tnia, que tinha o rosto radiante.
      - Tnia, disse, agora quero lhe fazer uma promessa. Este anel  um smbolo do meu compromisso com voc e uma demonstrao, para os outros, de que eu a amo. 
Entregando-o a voc, estou lhe pedindo que se guarde unicamente para mim e que um dia, muito breve, voc se case comigo e passe o resto de sua vida em minha companhia.
      Selena sentiu os olhos se encherem de lgrimas. Viu que no rosto de sua irm tambm escorriam duas lgrimas. A jovem se ergueu e graciosamente estendeu a mo 
para o noivo.
      - Jeremy, falou ela, aceito de todo o corao este anel e seu pedido de casamento.
      Selena percebeu que alguns dos presentes fungavam. As mulheres, e os homens tambm, estavam procurando conter a emoo. Notou ainda que, milagrosamente, a 
msica irritante havia parado. Ento, no momento em que Jeremy tirou o anel do estojo e o colocou no dedo de Tnia, todo o aposento estava envolto em silncio. Em 
seguida, os noivos se beijaram com ternura e carinho.
      Uma calorosa salva de palmas ecoou pela mesa. E nesse instante, como que obedecendo a um sinal, a msica voltou a tocar, com um som de trombetas bem estridente, 
logo acima da cabea de Selena. Enquanto a garota batia palmas, ia pensando em como seria bom se seu irmo Cody estivesse ali, com sua esposa, Katrina. O problema 
fora que, poucos dias antes, a filhinha do casal, que ainda era bem novinha, tivera uma infeco no ouvido. Eles acharam melhor no se arriscar a viajar com ela. 
Se os dois tivessem podido vir, a famlia inteira estaria como que assumindo esse compromisso de noivado juntamente com Tnia. Por outro lado, na famlia MacKenzie 
tambm estava faltando uma pessoa. Paul e Jeremy tinham um irmo mais velho que no pudera estar presente, mas Selena no sabia bem por qu.
      Tnia sentou-se e ficou a admirar o lindo anel de brilhante em seu dedo. Tinha no rosto um belo sorriso. Selena se deu conta de que nunca vira a irm to feliz. 
Pegou um guardanapo e limpou as lgrimas. Foi a que notou que deixara uma marca escura no linho branco. Pensou em dar uma espiada em Paul, do outro lado de V May, 
para ver como ele estava encarando tudo aquilo. Contudo logo pensou que suas lgrimas, provavelmente, haviam atrapalhado a maquiagem que Tnia lhe fizera. Ento 
prontamente pediu licena e se levantou para ir ao toalete.
      Bastou uma olhada ao espelho para compreender que no aguentaria aquele penteado nem a pintura carregada mais um minuto sequer. No que sua aparncia estivesse 
ruim, ou que a maquiagem estivesse exagerada. No. De acordo com as revistas de moda, estava at muito bem. Tnia fizera um servio de profissional. Alis, o rmel 
devia ser  prova de gua, pois no havia o menor sinal de que estava borrado. O problema  que aquela imagem ali refletida no se parecia com ela, e isso a incomodava.
      J ia comear a retirar os grampos quando a porta do banheiro se abriu e sua me entrou.
      - Tudo bem com voc a? indagou ela.
      - Ahn, han, replicou a garota. Achei que, quando chorei, tinha borrado a maquiagem e que meu rosto estava todo manchado. No foi lindo aquilo que papai e o 
Pr. MacKenzie disseram, e o que Jeremy falou quando deu o anel?
      Sharon Jensen fez que sim e sorriu.
      - Maravilhoso! disse. Mas eu queria ver se voc estava com algum problema.
      - E estou, disse Selena com um aceno afirmativo. Estou cansada de ser essa "belezinha" que Tnia produziu. Quero soltar o cabelo e lavar o rosto.
      - Acho melhor voc esperar um pouco, interveio a me. O pessoal j est se preparando para ir embora. Catherine vai servir a sobremesa em casa. E creio que 
V May est cada vez mais confusa.
      - , eu sei, explicou a garota. Ela achou que eu e o Paul  que estvamos ficando noivos. At disse pra recepcionista e pra todo mundo que estava na sala de 
espera que ns amos nos casar.
      - Oh, no! exclamou a me, mordendo o lbio inferior.
      Selena nunca havia notado que a me fazia isso, mas agora se dava conta de que ela repetia esse gesto com freqncia. Ento fora dela que "pegara" essa mania.
      - Percebi que voc e o Paul no conversaram quase nada, continuou Sharon. Est tudo bem com vocs?
      Quando Selena j ia abrindo a boca para responder, a me de Paul entrou no banheiro.
       - Ah, vocs esto  a! J vamos embora. O Paul e o Jeremy j foram. Ento ambas podem vir comigo.
      - E V May? indagou Sharon.
      - Foi com Paul. Parecia que ela no queria largar o brao dele por nada deste mundo, comentou Lindy. Ficou to apegada a ele, no? Que gracinha!
      Selena foi acompanhando as duas mulheres at o estacionamento. Entrou no carro, sentando-se no banco de trs. Assim que chegaram em casa, correu para o quarto. 
Arrancou o vestido justo de Tnia e vestiu sua bermuda jeans. Era maravilhoso poder respirar novamente. Correndo a mo pela pilha de roupas da irm, muito bem arrumada, 
pegou um bluso de moletom e foi para o banheiro.
      Soltou as mechas presas. Lavou o rosto e retirou toda a maquiagem dos olhos. A imagem que viu no espelho instantes depois era de uma cara limpa, menos sofisticada, 
mas muito mais feliz. O nico problema era o olho roxo. A mancha no desaparecera, como num passe de mgica, enquanto estivera coberta pela maquiagem.
      Selena pensou em passar um pouco da sombra clara da Tnia sobre a parte escura. Todavia no tinha certeza se isso iria ajudar muito, j que no haveria as 
outras camadas que a irm aplicara em sua pele. Vestiu o bluso de moletom e abanou a cabea para soltar bem os cabelos. Em seguida, passou o pente neles.
      - Essa agora sou eu de verdade, disse para a figura refletida no espelho.
      Pensou no que poderia dizer quando Paul visse seu rosto e cabelo agora ao natural.
      - Amigo, aceite-me do jeito que sou ou ento pode ir embora imediatamente, porque esta aqui  a minha realidade.
      Contudo, assim que disse isso, ocorreu-lhe um pensamento pssimo. E se Paul decidisse ir embora? E se ele no gostasse muito dessa "realidade"? No poderia 
nem ficar chateada. O rapaz acabara de passar um ano na Esccia, bem sossegado, e agora aqui estava ele, s voltas com as confuses da V May agarrada a ele e fazendo 
declaraes falsas em pblico. Alm disso, ainda havia esse sagrado compromisso que o Jeremy e Tnia estavam assumindo. Ento, que tal se o Paul desse uma boa olhada 
naquela que era e sempre seria a verdadeira "Selena Jensen"? E se, assim que entrasse na sala, aquele rapaz, que havia conquistado seu corao com suas cartas escritas 
em letra grande, em papel de seda, resolvesse dar meia volta e ir embora?
      Por um instante, o tempo ficou como que congelado.
      - S existe um jeito de saber isso, disse Selena para sua imagem refletida no espelho. E vai ser agora ou nunca.
      

Captulo Nove
      
      Quando Selena entrou na sala, com sua velha sandlia, a surrada bermuda jeans e o moletom de Tnia, o aposento estava vazio. Contudo ouviu vozes vindo do ptio, 
nos fundos.
      Atravessou a cozinha e saiu porta afora. Todo o pessoal se achava em volta de uma mesa grande, sentados em espreguiadeiras ou cadeiras de jardim. Lindy MacKenzie 
estava ajudando Kevin e Dilton, que se serviam de sorvete. Sobre a mesa havia vrias caixas. Ao que parecia, cada um deveria preparar seu prprio sundae.
      Correu os olhos pela rea  procura de Paul, mas no o viu. Seu corao comeou a bater forte de novo. E se ele j tivesse ido embora? E se j houvesse analisado 
bem os fatos e, sentindo que j cumprira sua obrigao como filho e irmo, comparecendo ao jantar de noivado, resolvera voltar para casa?
      Todavia, antes que principiasse a se desesperar, ouviu a voz grave do rapaz s suas costas.
      - S tinha esta l no freezer, me, disse, colocando na mesa uma caixa de sorvete de creme. Quer que eu v comprar mais uma de chocolate?
      - No, no, replicou a me. Assim est bom, est timo. Acho que vai dar.
      Lindy ergueu o rosto para olhar para o filho e, a, avistou Selena de p junto  mesa, de costas para ele. A garota ainda no tivera coragem de se virar e 
encarar o rapaz. Pela expresso do rosto de Lindy, percebia-se que ela ficou surpresa com a mudana da aparncia de Selena. A mulher tambm contraiu levemente o 
rosto, talvez por causa do olho roxo. Logo em seguida, porm, sorriu, como fizera no momento em que a abraara, e disse:
      - Voc j fez o seu sundae, Selena?
      - Ainda no, respondeu.
      Sentiu uma ponta de alvio ao perceber que a mulher no fizera alarde pela mudana na sua aparncia. Quase sentia o olhar de Paul fixo nela, s suas costas, 
talvez querendo que ela se virasse. Contudo continuou com a cabea abaixada e mordeu o lbio.
      - Eu tambm no, falou o rapaz.
      Ele esticou o brao na direo das tigelas,  esquerda de Selena, esbarrando de leve no ombro dela. Pegou duas e estendeu uma para a garota.
      - Aqui, pra voc, disse.
      Selena respirou fundo e foi se virando para ele devagar. Deu um sorriso franco, sincero, cordial, para contrabalanar o choque que ele teria quando visse como 
estava.
      Paul nem pestanejou. Olhou-a com a mesma expresso com que a fitara no avio, quando se tinham conhecido. Esticou a mo e encostou o dedo na mancha escura 
sob o olho esquerdo. Em seguida, tocou o rosto dela num ponto ao lado do machucado. Foi um toque leve, como o de uma criana que, fascinada, tenta tocar uma bolha 
da sabo.
      - Tivemos um pequeno acidente com uma lata de refrigerante, explicou Selena, antes que ele perguntasse. Foi no carro, quando estvamos vindo pra c.
      O rapaz fez um aceno de cabea, com ar compreensivo. Parecia estar examinando o rosto e o cabelo dela atentamente, como se a visse pela primeira vez. Selena 
continuou lhe dando explicaes em voz baixa, ignorando os outros que estavam por ali.
      - Tnia resolveu me maquiar para o jantar, para encobrir a mancha roxa. Depois achou que tinha de me pentear daquele jeito, para combinar com a maquiagem.
      Paul fez outro aceno de cabea, dessa vez com um sorriso. Pegou Selena pelo brao e cochichou em seu ouvido:
      - Venha c!
      A garota quase deixou cair a tigela de sorvete no cho, mas conseguiu coloc-la rapidamente na mesa. Paul soltara seu brao, entretanto ela parecia ainda sentir 
uma mo invisvel a segur-la. Ele foi saindo por entre o pessoal que conversava, e Selena o acompanhou. Caminhou pelo gramado em direo ao caramancho. Sem dizer 
nada, o rapaz seguiu em frente, desceu a escadinha de madeira e foi para a praia. Quanto mais se afastavam da casa, mais forte era o barulho das ondas.
      Na linha do horizonte, havia algumas nuvens pesadas quase encobrindo o Sol. Pareciam um grande navio de guerra. Mais alguns minutos, e o astro "mergulharia" 
atrs desse "navio". Assim o dia estaria terminado. Entretanto a sensao de Selena era de que, para ela e Paul, estava apenas comeando.
      Quando ela chegou  areia, tirou as sandlias, como Paul havia feito, e seguiu atrs dele. Guardou o calado debaixo da escadinha de madeira, para peg-lo 
quando retornasse.
      Paul foi caminhando lentamente pela praia com Selena a seu lado. A garota estava se deliciando com a sensao dos gros de areia entre os dedos. Pareciam massagear-lhe 
a planta dos ps, transmitindo-lhe calma e frescor.
      Os dois iam andando devagar, observando o claro solar cada vez menos intenso. Seguiam calados, caminhando lado a lado, os passos sincronizados. Uma brisa 
salgada batia no cabelos de Selena, atirando-os no rosto dela. Um passarinho pousou ali perto e depois foi saltitando em direo  gua, seguindo uma onda que voltava 
e bicando as bolhas formadas na areia. Provavelmente estava  procura de algo para "jantar".
      Parecia que nem Paul nem Selena pensavam em algo para dizer. O fato era que a garota tinha tanto para falar, que no sabia por onde comear. Sentia-se em paz, 
mas um pouco tensa. Por fim no aguentou mais.
      - Espere a! disse. Pare aqui um pouquinho. Fique quieto!
      O rapaz parou, com os ps enterrados na areia molhada. Selena deu alguns passos afastando-se dele e se virou para encar-lo. O vento batia em seu rosto, atirando 
para trs as mechas do cabelo. Uma onda veio e cobriu os ps de Paul, enterrando-os ainda mais na areia, porm ele continuou parado.
       luz do entardecer, Selena percebia que a expresso dele era tranqila. Parecia feliz, sem precisar dizer ou fazer nada. Era ela que sentia necessidade de 
agir.
      - 'T bom, principiou a garota, desejando interiormente que Paul no achasse sua atitude muito estranha. Eu queria que, quando nos encontrssemos, acontecesse 
isto...
      Em seguida, abriu os braos e gritou alegremente:
      - Paul,  voc!  voc mesmo que est aqui!
      Ele entendeu o que ela sentia e tambm abriu os braos.
      - Selena, disse ele, depois de tanto tempo, finalmente estamos juntos!
      A garota achou a cena meio ridcula e melodramtica, totalmente diversa do que imaginara. Contudo, em essncia, era isso que queria. Agora podiam correr um 
para os braos do outro.
      S havia um problema. O rapaz parecia preso ao cho, com os ps enterrados na areia. Selena foi a nica que correu. Bateu de encontro ao peito dele e sentiu 
uma pontada no olho machucado.
      - Aii! gritou, afastando-se do rapaz e dando um giro com o corpo, como que para aliviar a dor.
      - O que foi? indagou Paul, arrancando os ps da areia, aproximando-se dela e tocando de leve o ombro de Selena.
      - Bati com o rosto no seu peito, explicou. O que voc anda fazendo? Tem feito musculao? Parecia uma pedra!
      E para dar mais nfase ao que dissera, esmurrou de leve no peito do rapaz. De novo bateu em algo duro.
      - Espere a, disse ele prontamente, tirando do bolso uma fita cassete. Isto  um presente pra voc. Esqueci que a tinha posto neste bolso.
      Ele estendeu a fita para Selena.
      -  musica escocesa, continuou o rapaz, explicando. Lembra que eu disse que iria comprar uma fita pra voc?
      - Ah, . Obrigada! Acho que lembro, replicou ela, ainda com a mo no rosto. Guarde pra mim a no seu bolso. Acho que no cabe no meu.
      - Claro, disse o rapaz, recolocando-a no bolso da camisa e dando um tapinha de leve sobre ela. Mas lembre-se de que ela est aqui. No venha bater aqui de 
novo.
      Selena abaixou a mo e tentou sorrir, sem mover muito os msculos prximos dos olhos.
      - Ai! fez ela de novo. Sorrir, pra mim, agora di muito!
      - No precisa sorrir, interveio o rapaz.
      Ele a fitava com uma expresso carinhosa. Parecia satisfeito s de estar ao lado dela. Selena passara muitas horas olhando para o retrato de Paul. Com isso 
pensara at que j conhecia o rosto dele de cor. Agora, porm, percebia que no.  luz suave do entardecer, via que o cabelo dele estava mais curto do que na foto. 
A expresso carinhosa que tinha agora tambm era diferente. No era a imagem de Paul MacKenzie que se achava gravada em sua mente. Entretanto ali estava a realidade. 
Era o verdadeiro Paul. E estava perto, a apenas alguns centmetros de distncia dela.
      - Segure minha mo, disse ela.
      Estivera pensando nisso, mas no havia planejado diz-lo em voz alta.
      - Pois no, senhorita! replicou Paul com uma risadinha, atendendo a ordem dela num jeito brincalho.
      Ele estendeu o brao e ela tambm esticou a mo, segurando a dele firmemente. Paul parou de rir.
      Ah, ele sentiu isso! pensou Selena empolgada. Tenho certeza de que sentiu!
      A garota teve a sensao de que seu brao esquerdo esquentara, como se estivesse carregado de eletricidade. Anteriormente j havia andado de mos dadas com 
seu colega Ronny, mas no sentira o que experimentava nesse momento.
      - Vamos andar, sugeriu Paul, ainda segurando firmemente a mo dela.
      Caminharam em silncio por vrios minutos e afinal afrouxaram um pouco as mos. Selena pensou que esperara muito tempo por essa situao e no queria que terminasse 
to depressa. Contudo as mos deles estavam ficando suadas, e a garota comeou a sentir um leve formigamento no polegar. Ento seria bom mesmo afrouxar um pouco. 
Relaxando os braos e as mos, eles tambm ficaram menos tensos. 
      - Fiz uma poesia pra voc, disse o rapaz, quebrando o silncio que se formara entre eles.
      -  mesmo?
      - . Escrevi na semana passada, quando estava pensando em como iria ser nosso reencontro.
      Selena sentiu o corao bater mais forte. Comeou a se indagar se ele estivera ansioso para rev-la, tanto quanto ela estivera. Era provvel que sim, j que 
at escrevera uma poesia para ela.
      - Vamos ver se consigo lembrar tudo de cor, disse ele, conduzindo a garota para um ponto onde havia uma rocha, na qual a gua escavara um buraco.
      Soltou a mo de Selena, que se acomodou no "assento" da rocha, ao abrigo do vento. Ali estava menos frio e mais silencioso. Dava para escutar melhor a voz 
profunda de Paul.
      O rapaz fitou-a direto nos olhos e comeou a recitar o poema.
      
"Certa vez lhe perguntei
Se voc voava.
Voc me garantiu
Que no tinha asas.
Por que mentiu pra mim?
Seno, como poderia
Atravessar o mar
E vir at a minha torre escura,
Trazendo-me po e luz?
Aprendi a conhecer
O som do ar agitado,
Do tremular da vela,
E da orao sussurrada.
Voc  capaz de dizer
Que realmente no estava l,
Do outro lado do mar?
Agora, a distancia entre ns
 de apenas um passo.
Vejo seu rosto em plena luz.
Agora me diga:
Onde esconde suas asas?"
      
      - Uau! exclamou Selena.
      Foi a nica palavra que conseguiu murmurar, mas logo em seguida, pediu:
      - Fale tudo de novo.
      O rapaz repetiu o poema e depois disse, como que o interpretando:
      - Eu estava lembrando que o nico elemento que nos ligou, durante esse tempo todo, foram as palavras. Primeiro, foram as que escrevemos um para o outro, e 
depois, as que dirigimos a Deus, quando oramos um pelo outro.
      Paul deu um passo adiante e pegou a mo de Selena que estava no colo dela. Entrelaou seus dedos com os da garota e continuou:
      - Quero dizer, principalmente as oraes que voc fez por mim, e depois as que eu fiz por voc, mais recentemente.
      A garota deu um aperto carinhoso na mo dele e tambm fez sua interpretao da poesia.
      - E durante um ano, essas palavras atravessaram o mar e subiram ao cu. Mas agora estamos perto um do outro e... como foi que voc disse? "A distncia...
      - "A distncia entre ns  apenas um passo."
      - Isso. Apenas um passo e...
      - "Vejo seu rosto em plena luz", concluiu Paul.
      A garota sentiu o rosto avermelhar-se. Deu um sorrisinho maroto, sentindo mais uma vez o ferimento no olho.
      - E aposto uma coisa, falou, apontando para o lugar dolorido. No era exatamente assim que esperava ver meu rosto.
      Paul inclinou um pouco a cabea e fitou-a detidamente, bem de perto, quase podendo at enxergar com nitidez as "benditas" sardas do seu nariz.
      - Na realidade, disse ele, esperava v-lo como est agora, e no como estava quando a encontrei na cozinha.
      Selena deu uma risada.
      - Ai! Doeu! disse, tentando voltar a ficar sria.
      - Venha c! falou o rapaz em tom carinhoso.
      Ele soltou a mo de Selena e se sentou perto dela, na areia. Assim os dois estavam como que num "cantinho" particular, meio resguardados do vento. Passou o 
brao em torno dela e, com um gesto, convidou-a a apoiar o rosto - o lado que no estava ferido - no ombro dele.
      Selena achegou-se mais a ele, sentindo-se relaxar. Ele exalava um perfume agradvel. No era o aroma de pinho que ele usava quando o conhecera. Era mais um 
cheiro de sabonete e de roupa lavada que havia se secado ao varal. Sentiu o calor do brao dele em seu ombro, o queixo apoiado de leve na cabea dela.
      E os dois ficaram sentados na areia, bem juntinhos, olhando as ondas ir e vir, sem dizer nada. 
      

Captulo Dez
      
      Naquela noite, Selena ficou deitada um longo tempo, sem conseguir dormir. Quando chegara de volta ao quarto, j passava da meia-noite, e Tnia estava dormindo. 
Trocara de roupa e se deitara silenciosamente, desejando que a irm despertasse, para que pudesse lhe contar na ntegra o que acontecera nas ltimas horas.  que, 
no final, tudo ficara meio confuso.
      Tossiu, para ver se acordava Tnia, mas no adiantou. Por fim, at ficou alegre de a outra no ter despertado. Mudou de idia. No queria mais conversar com 
a irm. Afinal o que se passara, em todos os detalhes, dizia respeito s a ela. Talvez fosse melhor mesmo no contar a ningum. Bom, pelo menos enquanto ela prpria 
no entendesse tudo claramente. Sabia que Amy e Vicky jamais lhe perdoariam se, dentro das prximas horas, no lhes desse um relato completo do que ocorrera. Ento 
tinha muito que pensar.
      Deitou-se de costas e ficou a olhar para o teto, contemplando os pontinhos prateados que reluziam nele. O brilho era reflexo da lmpada noturna, que estava 
acesa no banheiro. Contudo eles no eram nada, comparados com as estrelas que ela havia apreciado na companhia de Paul. Tampouco chegavam aos ps da Lua em quarto 
crescente, que estivera a espi-los, com um leve sorriso. A prpria Selena tambm mantivera um meio sorriso o tempo todo. Acabara at ficando com o rosto um pouco 
dolorido. Contudo, se no sorrisse, seria seu corao que doeria, pois se sentia muito feliz.
      Selena e Paul tinham permanecido por um bom tempo - uns momentos maravilhosos - aconchegados ali naquele cantinho, sem dizer nada. Depois se levantaram e caminharam 
pela praia, de mos dadas. Dessa vez, no as seguraram com firmeza. Sentiam uma grande tranquilidade, e deixaram as mos mais  vontade, como que brincando. Primeiro, 
andaram com os dedos entrelaados. Instantes depois, conversaram sobre V May, e Selena agradeceu ao rapaz por ter sido to compreensivo com ela. A engancharam 
o dedo indicador no do outro, deixando o brao balanar.
      A certa altura, a garota avistou uma concha na areia e se abaixou para peg-la. Brincando, Paul a chutou para adiante, em direo a uma onda que chegava. Selena 
no perdeu o equilbrio. Firmou-se nele e se levantou. Lanando mo de um golpe de autodefesa que Wesley lhe ensinara, ela passou o p em volta do tornozelo dele 
e, com um movimento rpido, derrubou-o no cho.
      O rapaz, pego de surpresa, ficou parado uns minutos. Obviamente sentia-se humilhado pelo fato de Selena hav-lo derrubado com tanta rapidez. A garota saiu 
correndo, ao sabor do vento, rindo muito. Entretanto Paul corria bem mais depressa e, poucos metros depois, ele a alcanou. Pegou-a pelos ombros e empurrou-a em 
direo  gua, dizendo que iria jog-la ao mar para ser "comida dos peixes". As risadas dos dois ecoavam nas pedras que havia ao final da enseada. Ali terminava 
a areia. Se quisessem continuar caminhando nela, teriam de rodear as rochas, andando nas pequenas poas e nas ondas que esguichavam de encontro s pedras. A chegariam 
do outro lado dela. Resolveram virar e voltar em direo ao centro da enseada, sentindo o vento lhes bater no rosto.
      - Estou amando estar aqui com voc! gritou Selena, por causa do zumbido do vento.
      Em seguida, num gesto impulsivo, passou o brao em torno da cintura dele e pegou o dele para colocar na sua. O rapaz parou de caminhar, virou-se para ela e 
a envolveu no braos, dando-lhe um abrao apertado. Ela sentiu um calor intenso por todo o corpo. Contudo durou apenas um instante. Paul a soltou. No voltou a segurar-lhe 
a mo nem passou o brao pelo ombro dela novamente, mas saiu correndo pela praia.
      Selena deu uma risada e foi atrs. E ela que havia pensado que ela  que era a impulsiva e emocionalmente instvel. Ao que parecia, Paul tambm tinha humor 
inconstante, igual a ela.
      Chegaram  escadinha quase sem flego. Pegaram os calados e entraram de volta no quintal da casa, fugindo da ventania. Selena arrumou o cabelo, todo embaraado, 
e disse:
      - Paul, espere a. Pare um pouco.
      Ela ficara no gramado, mas ele entrara no ptio.
      - Olhe o cu! No  lindo?
      O rapaz no voltou para o gramado. Permaneceu onde estava e dali mesmo ergueu a cabea para o alto.
      - Espetacular! exclamou em voz contida.
      - Que tal se a gente ficasse aqui a noite toda, olhando as, estrelas juntos? indagou Selena, sorrindo para ele.
      O rapaz fitou-a com expresso estranha e replicou:
      - Temos de entrar, Selena.
      - Espere! Quero lhe perguntar algo, disse a garota, entrando no ptio, e sentando-se.
      - O que ?
      - D pra sentar um pouco?
      Ele arrastou uma espreguiadeira, deixando-a a mais ou menos trinta centmetros da cadeira da garota. Sentou-se com movimentos lentos e entrelaou os prprios 
dedos, aguardando que ela falasse.
      Selena no entendia por que, de repente, acabara-se o aconchego e a proximidade entre os dois.
      - Eu queria saber se voc j resolveu como vai ser sua vida agora, no primeiro semestre.
      Na ltima vez em que haviam conversado sobre o assunto, ele dissera que sua idia era continuar trabalhando no mesmo lugar em que trabalhara durante as frias. 
Queria ganhar mais dinheiro. Iria fazer uma ou duas disciplinas isoladas,  noite, numa faculdade perto de sua casa. Assim teria condies de se matricular na Universidade 
Rancho Corona no segundo semestre. O plano dele era o mesmo de Amy. S que o rapaz morava a uma hora de carro dessa escola. Assim eles poderiam se encontrar nos 
finais de semana.
      - J me matriculei na faculdade. Vou fazer Sociologia, na segunda-feira, explicou ele. E estou numa lista de espera para cursar Estatstica, cujas aulas so 
na tera e na quinta. Alis, sou o primeiro da lista. At poderia fazer essa matria numa outra faculdade, na quarta-feira, mas o preo dela  o dobro.
      - timo! exclamou a garota, recostando-se na cadeira e olhando as estrelas no alto. Que bom que vai ter os finais de semana livres!
      Agora, deitada naquela cama do quarto de hspedes e olhando os pontinhos prateados do teto, lembrou-se de que a resposta do rapaz lhe dera a impresso de que 
estava ainda mais distantes um do outro.
      - Vamos ver, dissera ele simplesmente.
      Em seguida, ele se levantara, dizendo:
      - Vou entrar.
      Selena tambm se erguera e caminhara atrs dele, atravessando o ptio. Nessas ltimas horas, muitas vezes, ela ficara imaginando o que aconteceria quando eles 
fossem se despedir. Por um momento, teve certeza de que iria beij-la, antes de irem cada um para o seu quarto. Ela, pelo menos desejava dar um beijo nele.
      Contudo o rapaz no a beijou. Foi caminhando rapidamente, dando a volta pelo lado da casa e entrando pela porta da garagem. L dentro, ele tomou um copo de 
gua, bebendo avidamente, como se estivesse desidratado. Selena tambm pegou um copo com gua, e ficou parada, esperando. Achava que ele iria pelo menos abra-la 
ou dar-lhe "boa noite" de uma forma bem romntica. No o fez. Deu a impresso de que queria se afastar dela. Colocou o copo vazio na pia, voltou-se para a garota, 
fez um breve aceno de cabea e disse:
      - Durma bem!
      A seguir, virou-se e saiu, atravessando a sala de jantar a deixando-a na cozinha.
      Agora, passando e repassando todos os detalhes dos momentos em que tinham estado juntos, Selena no conseguia se lembrar de nada que houvesse dito que o levasse 
a se afastar dela. Talvez ele tivesse percebido que j era tarde; e no queria que depois os pais de Selena a repreendessem. Ela sabia que, se estivesse em casa, 
eles jamais permitiriam que ficasse fora at to tarde assim.
      Entretanto, em breve, isso iria mudar. Agora seria ela prpria quem estabeleceria seus horrios. Se ela e Paul quisessem ficar fora at tarde e andar na praia 
at o Sol nascer, eles  que decidiriam isso. Esse pensamento lhe deu uma sensao de contentamento.
      Fechou um pouquinho os olhos para ver as horas no despertador digital com nmeros verdes, que havia na cmoda: 2:27h. Amanh teria outro dia cheio. Tinha de 
se esforar para dormir. Primeiro, iriam ao culto, pela manh, na igreja de Paul. Depois haveria a recepo para Tnia e Jeremy, no salo de festas da igreja. A, 
ela e Paul poderiam ficar juntos.
      Acabou que eles ficaram "juntos" durante todo o domingo. Contudo, quem os visse, jamais teria imaginado que eram amigos e que haviam caminhado de mos dadas 
na praia. Na verdade, no pensaria nem que eram simples conhecidos. Durante o dia todo, Paul deu um jeito de manter certa distncia dela.  verdade que tinham sentado 
um ao lado do outro no culto, mas o rapaz literalmente colocou o hinrio entre os dois. Primeiro Selena se sentiu intrigada com a atitude dele. Depois ficou muito 
chateada. Afinal, quando a recepo terminou, e as duas famlias, bem cansadas por sinal, se preparavam para tomar cada uma o seu rumo, a garota j estava com uma 
poro de coisas para dizer ao rapaz. Sentia-se bem irritada.
      - Vamos embora? indagou o pai dela, pegando-a pelo brao. Os meninos j foram para o carro.
      Estavam no estacionamento da igreja, e Selena esperava para ver o que Paul iria fazer. O rapaz ainda se achava l dentro, provavelmente ajudando a guardar 
as ltimas mesinhas que tinham usado na recepo. Durante toda a festa, ele ficara andando de um lado para outro. Ora ajudava a ajeitar algo, ora abria ou fechava 
um armrio com a chave do pai, ou atendia s senhoras que serviam o lanche. Mantivera-se ocupado o tempo todo e mal conversara com Selena.
      Ento um pensamento lhe ocorreu. Estava sendo injusta com ele. Ali, ele se achava mais ou menos "a servio". Procurava ajudar no que fosse necessrio para 
que tudo corresse bem na festa do irmo. Afinal, ele era o filho do pastor e sabia onde estavam os utenslios e outros objetos.
      - Selena, chamou o pai, vendo que ela no se mexera, voc vai conosco?
      Com a raiva abrandada pelo que acabara de pensar, a garota sentiu que queria conversar com Paul. Se no pudesse falar com ele, pelo menos poderia ajud-lo 
a guardar as mesinhas. Assim ficaria ao lado dele mais algum tempo.
      - Acho que vou depois, com o Paul, disse afinal. Pode ir na frente.
      - Voc tem certeza de que ele vai voltar para a casa dos avs ainda hoje? Creio que ele disse que tem de trabalhar amanh cedo e que vai ficar aqui mesmo, 
na casa dele.
      A garota no pensara nessa possibilidade.
      - Acho melhor eu ir perguntar pra ele, disse. 'T bom?
      Aqui ela se virou e encarou o pai, que a fitava atentamente. Ela devia ter no rosto uma expresso de ansiedade, prestes a transformar-se em pnico, pois ele 
lhe respondeu com um tom bem brando.
      - Filha, se o Paul estivesse pensando em lev-la de volta para a casa dos avs dele, acho que a esta altura j lhe teria dito.
      Selena teve vontade de cair num choro convulsivo, mas ficou firme, resistindo a isso.
      - Vou levar s dois minutos para perguntar, insistiu.
      - Dois minutos, repetiu o pai, fazendo um aceno de cabea, com ar compreensivo.
      A garota saiu correndo e entrou no salo. Imediatamente avistou o rapaz varrendo o cho. Assim que ele a viu, dirigiu-lhe um leve sorriso. Selena sentiu que 
poderia se aproximar e conversar.
      Nesse instante, lembrou-se de algo que ocorrera mais ou menos um ano atrs. Ela estava prestando servio voluntrio na Highland House, uma entidade de ao 
social que oferecia assistncia aos moradores de rua da cidade. Quem dirigia esse trabalho era um tio de Paul, e na ocasio o rapaz tambm estava dando uma mo por 
l. Naquela poca, eles ainda no tinham um relacionamento profundo; na verdade, quase nem conversavam. Contudo Selena tinha a sensao de que Paul estava sempre 
a observ-la. Recordava-se de que se sentira um pouco intimidada com isso.
      Hoje, porm, no deixaria que ele a intimidasse. Agora j tinham um relacionamento melhor. Haviam se correspondido durante muitos meses, e em vrias de suas 
cartas ele abrira o corao para ela. Algumas horas antes, ele a abraara carinhosamente na praia e recitara um poema que escrevera para ela.
      Precisava saber qual era a razo da frieza que ele manifestava agora, fosse qual fosse ela. No dia seguinte, iria para a Universidade Rancho Corona; e no 
queria partir sem antes ficar tudo acertado entre os dois.
      

Captulo Onze
      
      - Voc vai voltar pra casa dos seus avs? indagou Selena, que parara a alguns metros de onde Paul se encontrava.
      - No. No estou pensando em voltar, no.
      - Ah! fez a garota.
      Ela no sabia se deveria ficar com raiva ou procurar ser compreensiva, j que ele teria de trabalhar no dia seguinte logo de manh.
      Paul encostou-se no cabo da vassoura, e Selena respirou fundo. Entretanto, antes que ela dissesse algo, o rapaz falou.
      - Selena, precisamos conversar.
      - Que engraado! replicou ela. Era exatamente o que eu ia lhe dizer.
      - Quero ser muito sincero com voc, continuou o rapaz, dando uma olhada  sua volta, como que para ver se havia algum a escut-los. S que ainda no sei como 
vou lhe dizer o que quero. Ento no vai dar pra ter essa conversa agora.
      - Bom, e quando voc acha que vai dar? Meu pai est me esperando pra irmos embora. E amanh cedo vou pra Rancho Corona. Voc deve trabalhar a semana toda. 
Ento s vamos poder conversar no prximo final de semana, talvez. Voc acha que at l j saber direitinho o que quer me falar?
      O rapaz parecia espantado com as palavras dela. Ou talvez no fosse com as palavras, mas com o tom sarcstico e irritado com que as dissera.
      - Desculpe-me! pediu a garota.  que estou um pouco irritada com voc e no sei o que dizer. Ontem  noite, foi tudo to maravilhoso entre ns, e a gente se 
entendeu to bem! Eu me abri totalmente com voc, Paul, continuou ela, lutando para no deixar as lgrimas escorrerem. De repente comeou a agir como se eu tivesse 
uma doena contagiosa. No quer mais conversar comigo, nem me abraar, nem me olhar diretamente nos olhos...
      - Eu a estou olhando diretamente agora, interps o rapaz, fixando nela os olhos azul-acinzentados.
      Selena tambm o fitou, mantendo o olhar fixo nele.
      - Qual  o problema, Paul? O que foi que aconteceu? indagou ela com voz mais suave, num tom mais brando.
      O rapaz apertou os lbios, ainda olhando-a diretamente.
      - A gente estava indo depressa demais. Fiquei com medo.
      - Medo de qu?
      - De perdermos o controle.
      Selena no entendeu. Eles haviam andado de mos dadas e depois sentado bem juntinhos. Ele recitara o poema que escrevera para ela. Tinham rido muito e contemplado 
as estrelas. Nada disso era "perder o controle".
      - Isso j me aconteceu antes, Selena. Por favor, acredite em mim. No quero que acontea conosco.
      - No quer que acontea conosco o qu?
      - Voc sabe, respondeu ele, examinando atentamente o rosto dela, como que procurando ver se ela entendia o que ele estava querendo dizer. Um envolvimento fsico, 
explicou o rapaz por fim. No queria que perdssemos o controle fisicamente.
      Selena ainda estava meio confusa.
      - Como  que poderamos perder o controle? insistiu falando em voz bem baixa, quase num sussurro. Voc nem me beijou.
      - Eu sei, disse Paul, com expresso de alvio. E voc no imagina como hoje estou feliz de no t-la beijado.
      Selena se sentiu profundamente ferida. As palavras e a expresso com que ele as disse foram um golpe doloroso para ela. Se Paul houvesse lhe dado um tapa no 
rosto, talvez no tivesse dodo tanto. Fez uma contrao facial e se afastou um pouco.
      - Ah, entendi, disse ela, desviando o olhar.
      - Ser que entendeu mesmo? indagou o rapaz, inclinando a cabea ligeiramente e dirigindo a ela um olhar encantador, parecendo muito sincero.
      Nesse momento, o pai de Selena apareceu  porta do salo e chamou-a.
      - Selena, precisamos ir embora. Os meninos j esto esperando no carro. Temos de ir agora.
      A garota teve vontade de dar mais uma olhada para Paul, para os seus olhos azul-cinzentos, sua testa larga, seu cabelo castanho anelado. Contudo resolveu no 
dar a si mesma esse prazer, embora seu corao lhe gritasse que seria o ltimo olhar. Continuou com a cabea baixa, sem fit-lo, e se virou.
      - Tchau, Paul! conseguiu dizer.
      Em seguida, saiu apressadamente, indo para junto do pai que se achava do outro lado do salo.
      - Ligue pra mim! gritou Paul. Ligue pra mim, quando j tiver o nmero do seu telefone na faculdade.
      - Tudo certo? indagou o pai, passando o brao em torno do ombro dela.
      Os dois foram caminhando apressadamente em direo ao carro, onde j se encontravam os outros membros da famlia.
      - Claro, replicou Selena secamente.
      Por dentro, ela estava tomando a deciso de controlar suas emoes pelo resto da vida. Fora muito ingnua em entregar o corao ao Paul, com tanta facilidade. 
Ele simplesmente no a queria. No gostava dela na mesma proporo em que ela gostava dele. Fizera papel de tola, e Paul entrara na "brincadeira", escrevendo-lhe 
poemas dos quais, ele sabia, ela iria gostar. Pegara na mo dela, porque percebera que ela desejava isso. Fora tudo um grande logro. Tudo que ele dissera em suas 
cartas era mentira. Todos os sonhos que ela abrigara, um grande engano. Fora tudo um imenso nada. Fora tudo uma longa e bem elaborada piada com a boba da Selena. 
E a frase final da piada fora aquela:
      "Voc no imagina como estou feliz de no t-la beijado!"
      Pronto. Tudo estava acabado. Ah! Ento era por isso que as pessoas compunham msicas a respeito do sofrimento do amor, de corao ferido, de sonhos desfeitos... 
Tudo isso era muito real para ela agora, dolorosamente real. Nesse momento, s se recordava de algo que Amy lhe dissera certa vez:
      "Quando Paul a fizer sofrer, prometo que vou estar do leu lado."
      Selena, lgico, havia lhe garantido que isso jamais aconteceria, pois sabia muito bem o que estava fazendo. Agora, estava exatamente nessa situao. Procurava 
encontrar foras bem no fundo do corao, para poder continuar caminhando ao lado do pai, em silncio, atravessando o estacionamento da igreja. Agia como se nada 
houvesse acontecido e, na verdade, sentia como se um buraco enorme, um grande desespero, tivesse se aberto  sua frente, engolindo-a inteirinha.
      De alguma forma, conseguiu prosseguir fingindo bem pelo resto do dia e da noite; e tambm no dia seguinte, quando o pai a levou para a Universidade Rancho 
Corona. Duas vezes, Wesley lhe perguntou se estava com algum problema. Respondeu que se sentia um pouco nervosa, porque afinal estava indo morar num dormitrio com 
outras moas, iria iniciar a faculdade e tudo o mais. Contudo tinha a impresso de que ele no acreditara nela.
      Harold Jensen ajudou a filha a levar seus pertences para o quarto que iria ocupar. A certa altura, ele disse:
      - No se esquea de ligar para o Paul. Ele pediu que voc lhe telefonasse assim que soubesse o nmero do seu telefone aqui.
      A garota se recordou vagamente de que, de fato, o rapaz dissera isso no momento em que ela saa do salo. Na verdade, queria ligar era para Vicki. Pensava 
pedir-lhe que viesse o mais depressa possvel. Ainda faltava mais de uma semana para o incio das aulas, mas no queria ficar sozinha naquele quarto. Sem a colega, 
e no dispondo de um carro, iria sentir muita solido nesse lugar. Anteriormente, pensara passar esses dias na companhia de Paul, sempre que ele tivesse um momento 
de folga.
      Depois que tudo j estava no quarto, saiu com o pai para ir at o dormitrio dos rapazes, onde Wesley estava descarregando o carro, tirando o equipamento do 
Ronny. Aproveitou para agradecer-lhe pelo que fizera por ela at esse momento, ajudando-a a preparar tudo de que precisaria na escola. Inesperadamente, ele pegou 
a mo da filha, com seus dedos fortes, e segurou-a.
      - Voc vai ficar muito bem aqui, Selena, disse. Eu e sua me  que vamos sentir um pouco, at nos acostumarmos com sua sada. Talvez tenha sido at bom ela 
ter voltado de avio com V May. Se tivesse vindo conosco e fosse se despedir de voc e Wesley, e mais as emoes do noivado de Tnia, seria muito difcil convenc-la 
a voltar para Portland. Ia querer se mudar para c, principalmente depois que visse esta escola.  exatamente como vocs falaram.
      Naquele instante, ainda caminhando de mos dadas, passaram perto de uma pracinha onde havia uma fonte. E ali, sentados nos bancos da praa, viam-se vrios 
alunos que tambm haviam chegado mais cedo ao campus. Alguns os olharam, mas Selena no se importou. Viu trs garotas conversando num canto e logo pensou que qualquer 
uma delas gostaria muito de ter um pai como o seu.
      De repente uma delas chamou-a pelo nome. Selena parou, e tanto ela como o pai se viraram. Era uma moa alta, que logo se levantou e veio na direo deles com 
um sorriso alegre. Usava shorts e uma camiseta de manga curta. Tinha cabelo castanho-claro, penteado numa nica trana que lhe caa nas costas. Estava de culos 
escuros, o que impediu que Selena a reconhecesse imediatamente. A certa altura, ela ergueu o brao para acenar e algo rebrilhou. Era uma pulseira de ouro com uma 
chapinha de identificao.
      - Cris! gritou Selena, lembrando-se da amiga e correndo para abra-la. No sabia que voc estava aqui! Como  que est? Quando foi que voltou da Sua?
      Cris deu um abrao em Selena e depois outro. Em seguida, tirou os culos, exibindo os olhos verde-azulados, que brilhavam de satisfao ao rever a amiga.
      - Ah, que bom v-la! exclamou a jovem e, notando a mancha no olho esquerdo, aproximou-se mais para examin-lo.
      - Eu trombei com uma lata de refrigerante, explicou Selena. Hoje j est bem melhor do que dois dias atrs.
      Cris sorriu.
      - Katie vai querer saber a histria toda, comentou. Ela j lhe contou da ocasio em que estvamos num barco e o Douglas a deixou com o olho roxo?
      - No, mas tenho certeza de que  s eu perguntar, e ela me conta tudo. Ah, Cris, este aqui  meu pai.
      - Prazer em conhec-lo, Sr. Jensen, disse a moa, estendendo-lhe a mo.
      - Igualmente, Cris, replicou Harold Jensen, cumprimentando-a tambm.
      Nesse momento, Selena se sentiu mais adulta. Seus colegas do colgio nunca cumprimentavam seu pai com um aperto de mos. E sua amiga parecia mais adulta ainda. 
Fazia mais de um ano que Selena no a via. A ltima vez fora na ocasio em que tinham ido  Sua, com a tia de Cris, para que a jovem conhecesse uma faculdade de 
l. E ela de fato acabara indo estudar nessa escola, permanecendo ali um ano.
      - O Ted tambm est aqui? quis saber Selena.
      - Acabou de sair, explicou Cris. Quando cheguei da Europa, dias atrs, ele foi com meus pais ao aeroporto para me buscar. Depois ficou conosco at hoje. Agora 
de manh me trouxe aqui e saiu. Mas vai voltar, completou a jovem sorrindo. Vai trabalhar at o final da semana e, na sexta-feira, vir para ficar no dormitrio 
masculino.
      Selena sentiu uma certa alegria misturar-se  sua tristeza. Se tudo no estava indo bem entre ela e Paul, pelo menos podia alegrar-se porque Cris e Ted estavam 
juntos. Depois iria perguntar  amiga h quantos anos eles namoravam. Cinco? Ou eram seis? Fossem cinco ou seis, o fato era simplesmente extraordinrio, pois ela 
no conseguia manter um namoro por mais de cinco ou seis horas.
      - Katie vai chegar agora de tarde, informou Cris.
      - Selena, interveio o Sr. Harold, acho que daqui consigo achar o caminho at o dormitrio dos rapazes.
      - Tem certeza, pai?
      - Tenho, sim. Ento d c um abrao, que eu j vou embora.
      Selena deu um abrao apertado no pai e cochichou ao seu ouvido:
      - Tchau, pai! Eu o amo muito! Obrigada por tudo!
      - Eu tambm a amo, querida! disse ele tambm sussurrando.
      Quando se afastou, percebeu que ele estava "exagerando" no sorriso. Em volta dos olhos, havia aquelas ruguinhas que sempre apareciam ali quando ele estava 
se contendo para no chorar.
      - Tudo bem com o senhor? indagou Selena em voz baixa.
      Ele fez que sim e deu-lhe um ruidoso beijo no rosto. Em seguida, virou-se e foi em direo ao dormitrio.
      - Puxa, acabo de me despedir do meu pai, comentou a garota em tom srio, virando-se de novo para Cris. E achava que ia ser diferente.
      - Voc quer ir l com ele? indagou Cris.
      - No, no.
      - Tem certeza?
      Selena ficou uns instantes a olhar o pai que se afastava, observando aquele seu jeito de caminhar, que ela conhecia to bem. Viu-o descer a estradinha e passar 
atrs da biblioteca. A sumiu de vista.
      - So tantas despedidas... disse pensativamente, com forte sensao de perda.
      Cris ps a mo no brao da amiga, apertando-o de leve.
      - Mas muitos encontros tambm, comentou ela.
      Selena sorriu diante da compreenso de Cris.
      - Se eu no morrer com todas essas despedidas, disse, talvez possa curtir alguns dos encontros.
      - , concordou Cris. Sei o que voc est querendo dizer. Vamos l. Eu lhe trouxe uma lembrancinha da Sua. Est no meu quarto. Quem sabe isso pode at alegr-la 
um pouco?
      - Voc trouxe um presente pra mim?
      - Trouxe. E tenho certeza de que vai gostar.
      Cris recolocou os culos no rosto e foi levando Selena em direo ao dormitrio. A garota no conseguia imaginar o que fora que ela lhe trouxera. Contudo sabia 
que iria amar estar ali convivendo com Cris, Katie e todos os outros amigos. Naquele momento, pela primeira vez, lhe ocorreu que talvez devesse enxergar o Paul como 
algum de quem se despedira de uma vez para sempre. Quem sabe iria "encontrar" algum, um outro rapaz, ali na Rancho Corona!
      

Captulo Doze
      
      O lado de Cris no quarto, o esquerdo, estava muito bem ajeitado. No direito, havia apenas uma cama, ainda no arrumada, um closet, uma mesa e estantes vazias. 
A jovem j colocara seus pertences nos devidos lugares. Quando Katie chegasse teria de "correr" para organizar o seu lado.
      - Puxa, voc j est toda instalada aqui! disse Selena, correndo os olhos por alguns dos quadros pendurados na parede.
      Perto da janela, havia um pster de paisagem. Retratava uma pequena cachoeira, no alto da qual se via uma pontezinha rstica. Na base do quadro, havia um pedao 
de tecido, que parecia recortado de uma camiseta. Nele se lia: Sobrevivi  estrada de Hana.
      Prximo da mesa, havia outro pster de paisagem. Esse era mais conhecido de Selena. Tratava-se de uma montanha nos Alpes. No alto, viam-se os picos cobertos 
de neve. A encosta mais embaixo era cortada por uma estradinha estreita. Dos lados, havia algumas vacas, com seus cincerros em torno do pescoo. A relva era pontilhada 
de florzinhas azuis, amarelas e brancas, dando  cena a imagem de um tapete colorido.
      - Est foto  parecida com aquele lugar onde fizemos o piquenique com o Alex, comentou Selena.
      - Parece mesmo, concordou Cris. Foi por isso que resolvi comprar esse pster. Nesse ano em que estudei l, fui vrias vezes passear naquele lugar. E sempre 
me lembrava de voc, do Alex e do versculo que ele mencionou, sobre termos amor intenso uns pelos outros.
      Selena sorriu, recordando-se do fato.
      Est vendo? disse para si mesma. Existem outros rapazes no mundo que podem se interessar por voc. Paul no  o nico, no!
      - Eu lhe contei que vi o Alex no ms passado? indagou Cris. Ele foi visitar o tio dele na escola. Advinha uma coisa? Ele est noivo!
      Pode cortar o Alex da lista de provveis pretendentes, pensou Selena frustrada.
      - Que bom! exclamou ela num mpeto de generosidade. Ele merece uma moa bem legal. Eu lhe falei que minha irm ficou noiva do Jeremy? Tivemos uma tima festa 
para a famlia toda, nesse final de semana.
      - Ah, ento voc finalmente se encontrou com o Paul, disse Cris, estendendo o brao e pegando uma caixinha branca em uma estante que se achava acima da mesa.
      Selena observou que no mesmo mvel, sobre uma toalhinha bordada, havia uma velha lata de caf. Pensou que qualquer hora dessas iria perguntar  amiga por que 
deixava aquela lata velha guardada ali, como se fosse um bibel.
      - , finalmente me encontrei com ele, replicou. Foi maravilhoso, mas, ao mesmo tempo, horrvel. Se eu for lhe contar agora, vou comear a chorar.
      - Aqui, disse Cris, estendendo-lhe a caixinha branca. Veja se isso lhe traz doces recordaes. Desculpe a, 't? Amassou um pouco na mala.
      Selena abriu-a e dentro havia trs bombons belamente decorados.
      - Trufas! exclamou. Aposto que so daquela confeitaria aonde fomos com sua tia, no so? Puxa! E voc se lembrou!
      - Eu ia tentar trazer um doce folhado daqueles que eles tm l, principiou Cris, mas as trufas couberam melhor na mala. Lembra aquele dia em que fomos l, 
sentamos naquele banco, debaixo do Sol quente e provamos esse delicioso chocolate suo pela primeira vez?
      - E como lembro! Sua tia disse pra no o mastigarmos, mas deixar o chocolate derreter na boca, saboreando bem a gostosura.
      Selena partiu uma pontinha do bombom meio amassado e devolveu a caixinha para a amiga, para que esta tambm tirasse um pedao. Antes de pr o doce na boca, 
porm, fez outra observao.
      - Lembra de como sua tia ficou com raiva porque derrubamos uma estante de cartes, numa loja que havia do outro lado da rua? E ela teve de comprar tudo. At 
hoje ainda tenho um carto daqueles. Inclusive acho que o trouxe pra c. Creio que vou coloc-lo na parede, como um quadro.
      Cris riu e apontou para um grande quadro de avisos que havia perto do closet.
      - O meu est ali, disse. Olhe l!
      E estava mesmo. O carto retratava um buqu de flores silvestres. Bem no meio dele se via uma "ruga".
      Selena tambm riu e ergueu o brao, segurando o pedacinho de chocolate. Cris imitou-a.
      - Vamos contar at trs, disse a garota. Um, dois, trs!
      As duas amigas foram abaixando a mo lentamente e colocaram o doce na boca. Em seguida, deixaram que ele fosse derretendo devagar. Por alguns instantes, ouviram-se 
ali apenas murmrios.
      - Hummmmm! Ahhhhhhhhh!
      Cris se jogou na cama, retirando de cima do travesseiro um ursinho de pelcia que ali estava.
      - Vou sentir saudade daquela confeitaria! Comentou.
      Selena acomodou-se ao p da cama. Achou o edredom bastante macio. Era feito de uma colcha de retalhos amarela, j meio desbotada, e provavelmente tinha algum 
significado especial para a amiga, pois no combinava com a decorao do quarto. Olhando para a cmoda, notou que sobre ela havia um vaso com cravos brancos. Deduziu 
que o no devia t-los dado para Cris, quando esta chegara de viagem.
      - E de que mais voc vai ter saudade? indagou a garota. Isto , l da Sua?
      Cris olhou para fora, pela janela, com ar sonhador.
      - Acho que ainda no sei, replicou. Morei l um ano e agora, de repente, estou aqui. Creio que ainda no ca na realidade.
      - Voc sentiu muita falta do Ted?
      - Sim e no. Eu precisava "crescer" um pouco e resolver alguns aspectos da minha vida, antes de firmar o relacionamento com ele. E Ted tambm necessitava "crescer". 
Vivia mudando de escola e de curso. Arrumava uma poro de trabalho, mas no se fixava em nenhum. Nunca tinha dinheiro. Ento ele tambm precisava passar uns tempos 
sozinho pra tomar algumas decises.
      - Uns meses atrs, a Katie me disse que o Ted estava trabalhando feito um louco. Ela achou at que ele estava querendo juntar dinheiro para vocs se casarem.
      No rosto sereno e tranquilo de Cris apareceu uma expresso determinada.
      - Primeiro ele precisa se formar. E esse  o propsito dele.  pra isso que est vindo estudar aqui este ano. Resolveu que deseja trabalhar com jovens.
      - , concordou Selena. D pra ver o Ted nesse ministrio. Ele sabe ensinar e  um lder nato. Acho que eu, por exemplo, gostaria muito de t-lo como meu pastor. 
Parece que ele fez a deciso certa.
      Cris acenou que sim.
      - Parece mesmo, disse. Ele vai dar um timo pastor de jovens. S que demorou muito pra chegar a essa concluso. Durante um bom tempo, o Ted achou que era pra 
ele ser missionrio no meio de tribos selvagens, morar numa maloca e viver comendo coco.
      Selena riu.
      - Voc est brincando! exclamou.
      - Estou no, insistiu Cris. Era isso mesmo que ele queria fazer. Pode perguntar pra ele.
      - E o que foi que o fez mudar de idia?
      - Deus.
      - Ah! fez Selena.
      - E, pelo que sei, no foi nada fcil, continuou Cris, ajeitando o travesseiro e sorrindo. Ted queria trabalhar fazendo a traduo da Bblia pra outros povos, 
mas no tem facilidade para aprender lnguas. Tentou estudar Lingustica, mas teve de largar a disciplina, porque no estava entendendo nada. Depois se filiou a 
uma organizao missionria, pensando que iriam mand-lo para Papua Nova Guine, mas eles o enviaram para a Espanha.
      - Foi a que voc se encontrou com ele, naquela vez em que fizemos a viagem missionria no Carnforth Hall, quando conheci vocs, no foi?
      - Exatamente, respondeu Cris. Ento o Ted "rodou" muito, mas afinal descobriu o que Deus quer da sua vida. E acho que foi mais fcil pra ele passar por esse 
processo todo distante de mim.
      - E agora? quis saber Selena. Em que p est tudo?
      Cris deu de ombros. No parecia preocupada; s esperanosa e cheia de sonhos.
      - Agora estamos apenas "continuando a continuar", como dizia o diretor do orfanato de Basilia. S sei que foi maravilhoso passar esses ltimos dias com o 
Ted, l em casa me ajudando a arrumar tudo pra vir pra c. Aqui vamos nos ver todos os dias. Mas no quero comear a fazer previses sobre o que vai acontecer. Vamos 
viver um dia de cada vez.
      Selena pegou a caixinha de chocolates que estava sobre a mesa. Tirou um bombom e ofereceu o outro para Cris. Como a amiga abrira o corao e lhe dissera tudo 
sobre o Ted, sentia-se animada a lhe contar como fora seu horrvel e maravilhoso final de semana com Paul.
      Assim que o ltimo pedao de chocolate lhe derreteu m boca, a garota deu um suspiro profundo e disse:
      - Que bom que tudo est mais ou menos acertado entre voc e o Ted! Comigo, o que tenho pra dizer  que, ontem, todos os meus sonhos relacionados com o Paul 
se desfizeram de uma vez.
      - Quer desabafar comigo? indagou Cris. Quero dizer, gostaria muito que me contasse tudo, mas s se quiser mesmo!
      Cris era dois anos mais velha que Selena, sendo, portanto, da mesma idade da Tnia. Contudo a garota nunca vira essa colega do mesmo jeito que via a irm. 
Cris era uma amiga querida, algum "igual" a ela. Sendo mais experiente, era uma pessoa que poderia lhe dar conselhos.
      - No sbado, principiou, ele agiu comigo como se age com uma namorada. No domingo, praticamente me ignorou e disse que nunca mais queria me ver.
      - Ele disse isso? indagou Cris espantada.
      - Bom... falou Selena, tentando controlar as emoes para passar os fatos como eram na realidade. No exatamente. Mas foi o que senti. Sabe, no sbado, ns 
andamos na praia de mos dadas. Ele me abraou. Recitou uma poesia que escreveu pra mim.  o que digo, Cris. Eu tinha certeza de que estava tudo certo, entendeu? 
Achei que era aquilo que a gente sente quando est apaixonado. Nada poderia nos separar. Eu estava to... to...
      - Vulnervel? disse Cris, completando para ela.
      - . 'T bom. Vulnervel. E muito feliz. Tinha certeza de meus sentimentos.
      - E entregou o corao pra ele! insinuou Cris.
      Selena fez que sim.
      - E ele pegou seu corao, continuou a jovem, deu um sorriso amistoso e se ps a fit-lo com olhar crtico. Examinou-o bem e depois o largou e disse: "Ainda 
no est maduro.  melhor esperar um pouco mais".
      - U! Onde arranjou isso?
      - Num poema de Christina Rossetti. Eu o copiei no meu dirio. Algum tempo atrs, passei por esse mesmo processo com o Ted. E ainda me lembro do quanto sofri. 
 uma pena que voc esteja passando por isso, Selena, mas no significa necessariamente que tudo esteja acabado entre os dois.
      - Sei l, disse a garota, tirando as sandlias e se sentando na cama, com as pernas cruzadas  oriental. Paul disse que eu no imaginava como ele ficou feliz 
de no ter me beijado. Pra mim, isso implica que est tudo acabado, sim.
      - Por que ele disse isso?
      - Ah, falou que tudo estava indo muito depressa e que no queria que perdssemos o controle fisicamente, pois j passara por isso.
      - Ser que ele quis dizer que j teve um relacionamento fsico com algum?
      - Acho que sim. Mas como  que estava indo depressa demais e nos estvamos envolvendo fisicamente? A nica coisa que fizemos foi andar de mos dadas. Ele nem 
me beijou.
      Selena percebeu que estava ficando agitada,  medida que ia extravasando as emoes.
      - Dar as mos e abraar  se envolver demais? Acho que isso foi s uma desculpa, pra ele no dizer o que realmente queria. O fato  que o Paul no gosta de 
mim do jeito que gosto dele. No me quer por perto.
      - Selena, dar as mos e abraar so os primeiros passos. Voc sabe disso, n? Depois que a gente comea e se acostuma, fica muito difcil se afastar um do 
outro. Obviamente o Paul sabe como deve agir e quais os padres que quer seguir no relacionamento com voc. Ser que ele no estava querendo dizer que, com voc, 
no quer ultrapassar os "limites"?
      Selena relutava em aceitar uma explicao to simples.
      - Ento, por que disse que ficou feliz de no ter me beijado?
      - Certamente porque beijar  o passo seguinte, que ele no estava querendo dar.
      - Eu queria, afirmou Selena. A noite estava to romntica. Ali teria sido o cenrio perfeito para o meu primeiro beijo.
      - Selena, insistiu Cris, pense no seguinte. At ali no tinha havido nada entre vocs. Em poucas horas, deram o primeiro passo, que  dar as mos, e depois 
se abraaram, que  o segundo. Tenho a impresso de que Paul quis parar a e no ir "mais longe". Acho que isso foi at muito legal da parte dele.
      Em sua imaginao, Selena viu Paul sentado, imvel, no segundo degrau de uma longa escada. Tinha os braos cruzados, parecendo dizer com determinao:
      "Selena, quer voc queira ou no, s vou at aqui."
      Seu corao comeou a se abrandar. Por que no enxergara isso antes? Se ele no gostasse dela, certamente no teria parado no segundo passo. Teria ido mais 
longe. Como agira errado, enxergando os fatos de forma to negativa!
      - Sabe o que mais, Cris? Voc tem razo. Entendi tudo de forma errada.
      Nesse momento, Selena se recordou do jeito de Paul, no salo da igreja, apoiado no cabo de vassoura. Tinha a cabea meio inclinada para um lado e um jeito 
acanhado. Era uma expresso sem nenhuma maldade. Lembrava at aquele garotinho de olhos cinzentos que vira no colo de Jalene, na Mother Bear.
      - Sabe, interps Cris, admiro o Paul por ter agido assim com voc, principalmente sabendo que ele j deu outros passos com outras garotas.
      De repente, a imagem mental que Selena tinha do rapaz mudou. Ele no estava mais imvel no segundo degrau da escada. Surgiu uma outra cena, muito mais inquietante. 
Agora ele se achava numa escada rolante e subia pelos degraus dela, correndo. Ao seu lado havia outra garota. Era Jalene.
      

Captulo Treze
      
      - Ai, Cris! disse Selena de repente. Acho que vou passar mal!
      Deslizou da cama para o cho e se sentou ali toda encolhida, abraando as pernas junto ao peito.
      - O que foi? indagou a outra. Qual o problema? Ser que foi o chocolate?
      - No, no, no! respondeu Selena num gemido.
      Cris veio se sentar ao lado dela e tocou no seu brao de leve.
      - O que foi, Selena?
      A garota levantou a cabea e fitou a amiga, tentando apagar da mente a imagem da escada rolante.
      - Eu j devia ter entendido isso! exclamou. Por que no compreendi logo? Que ingnua que fui!
      Cris pegou um leno de papel e entregou  amiga, embora esta no estivesse com lgrimas nos olhos.
      - Agora entendo por que Paul disse que no estava disposto a conversar. Falou que ainda no sabia o que queria me dizer. E que eu no sabia de certo fato. 
Foi por essa razo que disse que no queria que perdssemos o controle. Disse tambm que j havia passado por essa situao e no queria que acontecesse conosco.
      - O qu ele no queria que acontecesse com vocs?
      Selena desviou o olhar da amiga e disse o que jamais desejaria ter dito.
      - A ex-namorada dele engravidou. Obviamente eles "foram at o fim". Eu vi o filhinho dela, o filho de Paul. Tem olhos acinzentados e inclina a cabea exatamente 
como...
      Aqui ela no conseguiu dizer mais nada. As lgrimas que estivera contendo at esse momento comearam a jorrar. Ela apoiou a cabea sobre os joelhos e chorou 
incontidamente.
      - Oh, Cris! disse ela afinal. Como pude ser to cega?
      Deu um profundo suspiro e depois continuou meio sufocada:
      - Quando Paul namorou Jalene, estava afastado de Deus. Foi por isso que resolveu ir embora e passar um ano na Esccia. Estava fugindo. Quando voltou, na poca 
da minha formatura, tinha planejado dar uma passada em Portland. Comentou que precisava fazer uns acertos com algumas pessoas. Provavelmente estava se referindo 
 Jalene e ao filho. Queria ver o filho!
      Selena teve outra crise de choro nervoso e ficou exausta com esse extravasamento emocional. O pior de tudo era que, com o excesso de choro, seu olho esquerdo 
comeou a doer em torno do machucado. Achava que ele estava principiando a inchar novamente.
      Cris continuou sentada ao lado da amiga, deixando que chorasse. Pacientemente, foi lhe dando lenos de papel e, duas vezes, passou a mo em sua cabea num 
gesto de compreenso.
      Afinal, quando Selena sentiu que chorara tudo que tinha de chorar, ergueu a cabea e respirou fundo. Pouco a pouco foi retomando o controle das emoes. Nesse 
momento, ouviram algum enfiando a chave na porta. Instantes depois, ela se abriu e a ruivinha Katie, barulhenta e extrovertida, entrou apressadamente, carregando 
uma caixa.
      - Lar, doce... Selena? O que houve?
      Katie deixou cair a caixa e foi para junto da garota.
      - O que aconteceu a com seu olho? Qual  o problema? Cris, o que 't acontecendo?
      Cris se levantou sem dizer nada e puxou a colega para um lado.
      - Venha aqui, disse. Vou ajud-la a pegar seus objetos no carro e trazer pra c.
      Em seguida, virando-se para Selena, indagou:
      - Quer que eu conte a Katie, ou depois voc mesma conta?
      Selena estendeu a mo para Cris.
      - Pode contar. Acho que no vou conseguir.
      As duas colegas saram, fechando a porta.
      -  Deus Pai, murmurou a garota em meio ao silncio do quarto, jamais pensei que passaria por algo assim. Por que o Senhor no me avisou? Por que no fez com 
que eu me afastasse de Paul muito tempo antes? Confiei tanto em Paul e tinha tanta esperana nele! Nunca pensei...
      O telefone que estava sobre a mesa tocou. Selena sobressaltou-se. Tocou de novo, e ela achou que deveria atender. Pigarreou e pegou o aparelho.
      - A1! disse.
      - Oi! respondeu uma voz masculina do outro lado. No sei se liguei para o quarto certo.  a Katie?
      - No, mas ela deve voltar j, replicou a garota, sentindo que conhecia aquela voz.  Wesley?
      - Selena?
      - . Por que voc 't ligando pra Katie?
      Estava procurando voc. Liguei para o seu quarto, mas ningum atendeu. Lembrei que, quando estivemos aqui da outra vez, voc disse que conhecia a Katie. Achei 
que poderia estar a.
      - , estou aqui, explicou ela, pegando outro leno de papel.
      Tentou assoar o nariz sem fazer barulho.
      - Papai foi embora uns minutos atrs, disse Wesley. Eu queria saber se voc quer se encontrar comigo aqui na lanchonete pra gente comer algo.
      - No estou com fome, respondeu Selena.
      Wesley fez uma pausa e em seguida indagou:
      - Algum problema?
      Selena no tinha certeza se poderia ou no se abrir com o irmo. Entendeu que deveria dizer algo, mas no tudo.
      - Acabo de descobrir uma coisa que me deixou bastante chateada, explicou.
      -  relacionado com o fato de estar fora de casa e por conta prpria agora?
      - No.
      - Voc no quer falar sobre o que aconteceu?
      Selena deu outro suspiro profundo.
      - J estou falando com a Cris, a colega de quarto da Katie.  aquela moa com quem fiz a viagem pra Sua, lembra?
      - Bom, ento vou deixar vocs conversarem. Mas, se tiver vontade de falar comigo, estou no ramal 3232, o.k.?
      -  um nmero fcil de guardar.
      - Ento, se quiser,  s me ligar. Agora vou ver se fao um lanche.
      Selena desligou e correu os olhos pelo quarto. Sentia-se meio tonta. Talvez estivesse era com fome. Quem sabe deveria ter ido almoar com o irmo? Provavelmente 
iria se sentir melhor. Pensou na possibilidade de ir se encontrar com ele na lanchonete, mas nesse instante Katie e Cris voltaram, carregando caixas imensas, que 
colocaram no cho.
      - Querem uma ajuda? indagou Selena, ajuntando os lenos de papel que deixara no cho e procurando uma lixeira.
      - Se quer saber minha opinio, principiou Katie, os olhos verdes faiscando em suas faces rosadas, eu acho que  uma grande bobagem.
      - Bobagem? repetiu Selena.
      - Contei tudo pra ela, informou Cris.
      - ; uma grande bobagem. O que aconteceu entre Paul e a ex-namorada pertence ao passado. Naquela poca ele no era crente. Ou era? Se era, pelo que me recordo 
do que voc me contou, estava totalmente afastado de Deus. Portanto o que sucedeu nessa poca  pra ficar pra trs. Quando voltou pra Deus, o Senhor lhe perdoou 
tudo. E se Deus no tem nada contra ele, ns tambm no devemos ter.
      - Voc ainda nem conhece o Paul, comentou Selena.
      - , mas hoje ele  um irmo em Cristo, no ? E a Bblia diz que temos de perdoar uns aos outros assim como Cristo nos perdoou. Selena, voc no pode guardar 
mgoa dele. Isso seria muito injusto.
      -  Katie, a questo  que h outras pessoas envolvidas nisso.
      - Voc lembra o que Jesus falou quando estava na cruz? Ele disse: "Pai, perdoa-lhes, porque no sabem o que fazem". Todo mundo comete erros todos os dias, 
e muita gente no tem a menor idia do que est fazendo. Se pedirem perdo a Deus, ns tambm temos de perdoar. J se esqueceu daquele versculo que est pintado 
na parede do Carnforth Hall? "O amor cobre multido de pecados."
      - No, interps Cris. O que est escrito l : "O amor tudo sofre, tudo cr, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba".
      - Bom, replicou Katie, limpando um pouco de suor da testa, mas esses dois ensinamentos sobre o amor so da Bblia. O que quero dizer  o seguinte, Selena, 
o que importa isso? O passado do Paul tem alguma coisa a ver com seu futuro?
      - No sei, respondeu a garota, com a sensao de que havia perdido todas as foras e o flego. Neste momento, no sei nada de nada.
      - Acho melhor a gente ir comer algo, sugeriu Cris. J so mais de 2:00h, e no sei de vocs, mas faz muito tempo que tomei o caf da manh.
      - Vamos s acabar de tirar meus objetos do carro, disse Katie. Depois a gente pega o carro e d uma chegada na cidade pra almoar. Quero dar uma passada na 
drugstore tambm. Estou sem xampu.
      As trs se puseram a agir rapidamente, trazendo as caixas pesadas de Katie para dentro do quarto que estava fresquinho, devido ao ar condicionado. L fora 
estava bem quente. Selena nunca havia visto o carro da amiga, um pequeno jipe, na cor amarelo-vivo. Achou que combinava perfeitamente com a dona.
      Depois de colocarem as caixas no lado do quarto que pertencia a Katie, as trs entraram no carro e foram para o povoado, que se chamava Temecula. Combinaram 
que iriam comer na primeira lanchonete tipo fast-food que encontrassem. Pegaram os sanduches e foram para o carro, seguindo ento para a drugstore. Selena comprou 
creme dental, um pacote de barras de cereais e uma garrafa de suco de ma. Katie tambm colocou numa cesta vrios artigos de que precisava. As duas foram  procura 
de Cris.
      Encontraram a amiga no setor de produtos de limpeza, olhando as embalagens de sabo em p. Parecia abobalhada.
      - Olhem s quanta caixa de sabo! exclamou Cris. Como vou saber qual delas prefiro? Na Sua, havia s umas trs ou quatro marcas. Aqui tem tantas! Levo lquido 
ou em p? E ser que preciso de amaciante? Que negcio  esse, alvejante pra tecidos em cores? Ser que levo um removedor de manchas?
      - Ela est completamente fora do ar, sussurrou Katie para Selena. Eu sabia que uma hora dessas iria ficar assim. Faz poucos dias que voltou, voc sabe, n?
      - Est com "ressaca" da viagem? indagou Selena.
      Katie fez que no e pegou Cris pelo brao, conduzindo-a para a fila do caixa.
      - Choque cultural, disse. Voltando a viver na prpria cultura.  uma "doena" que d muito em missionrios que passam longo tempo em lugares distantes. Eles 
esquecem como nosso pas  uma terra de abundncia.
      -  que tem tanta marca pra gente escolher... comentou Cris outra vez.
      - Estudamos sobre isso no semestre passado, na aula de Estudos Transculturais, informou Katie e, virando-se para Cris, continuou: Se voc ficar muito tempo 
nesta loja, Cris, vai acabar ficando doida. Vamos embora, pra eu arrumar meu lado do quarto. Amanh a gente compra o sabo.
      De volta ao dormitrio, Cris se sentia totalmente esgotada. Explicou que era por causa do calor e da diferena de fuso horrio.
      -  gente, disse ela, deitando-se de roupa e tudo, eu vou  dormir.
      - Posso continuar colocando minhas coisas no lugar? quis saber Katie. Ser que vou incomod-la?
      Cris no respondeu. Parecia que j estava dormindo.
      - Se voc quiser, interps Selena, posso ficar e ajud-la.
      - timo! exclamou Katie. J est com tudo seu arrumado?
      - Ainda no. Meu lado do quarto est igual a isto aqui; cheio de caixas. A Vicki s deve chegar no final de semana. Pra ser sincera, neste momento prefiro 
ficar aqui a ir para o meu quarto.
      - E pode at dormir a, props Katie. Tenho um colcho inflvel. Est numa dessas caixas. Se voc no se importar de dormir no cho, pode us-lo.
      E as duas puseram mos  obra. Conversaram sobre a faculdade, seus respectivos pais, o trabalho nas frias e as expectativas para o ano letivo que se iniciava. 
Em vrios momentos, tiveram mpetos de dar risadas, mas logo se lembravam de que Cris estava dormindo. A abaixavam a voz e tentavam ficar em silncio. Contudo parecia 
que aquilo no incomodava a colega. Estava num sono profundo.
      Selena ficou alegre de Katie no mencionar nada sobre Paul. Assim pde ir controlando as emoes at se acalmar de todo.
      Como Katie no tinha muitas lembrancinhas e objetos para pendurar na parede, no levaram muito tempo para arrumar seu lado do quarto. Selena estava comeando 
a compreender por que Wesley dissera que alguns objetos simples acabavam se tornando um tesouro muito precioso.  que eles eram o nico "contato" deles com o lar 
e com o passado. Ento ela prpria comeou a ficar ansiosa para ajeitar os pertences que trouxera de casa; mas hoje, no. Por enquanto preferia ficar ali, alegrando-se 
com a personalidade de Katie, expressiva e calorosa. Amanh, teria o dia inteiro para arrumar seu cantinho.
      Dormiu muito bem no colcho inflvel. Na manh seguinte, pegou uma camiseta emprestada com Katie, e a seguir as trs foram para a lanchonete tomar o caf da 
manh.
      - Quando ser que eles vo comear a servir as refeies aqui? indagou Selena.
      - A partir de quinta-feira, ao meio-dia, informou Katie.
      - At l, meu dinheiro j acabou todo, comentou Selena, pagando o pozinho e o suco de laranja que comprara.
      -  mesmo, concordou Cris, dando um bocejo. Ai, parece que no consigo acordar, gente!
      - Por que no volta e vai dormir? sugeriu Katie. Hoje no vai haver nada na escola.
      - U, ns tnhamos combinado de ajudar Selena a ajeitar o quarto dela.
      - , mas no h muito a fazer, no, interps a garota. Aproveite pra dormir o mximo, enquanto ainda pode. Parece que essa nossa tranqilidade aqui  uma daquelas 
calmarias que vm antes da tempestade.
      No instante em que Selena acabou de dizer isso, Wesley entrou na lanchonete por uma porta lateral. Ele a avistou logo e veio em direo  mesa onde as garotas 
se encontravam. E no estava com uma cara nada boa.
      

Captulo Quatorze
      
      - Onde voc estava, Selena? indagou ele, parecendo mais zangado do que preocupado.
      - Estava com elas. Katie, voc j conhece meu irmo, n? Wesley, esta aqui  a Cris.
      A jovem estendeu a mo para cumpriment-lo. O rapaz deu-lhe um rpido aperto de mo e se voltou para a irm.
      - Voc no foi para o seu quarto ontem  noite? perguntou ele.
      - No. Dormi num colcho no cho, no quarto delas.
      Wesley parecia bem irritado.
      - Ento me faa um favor. Liga pra mame e para o Paul, continuou ele, entregando-lhe um pedao de papel com um nmero. Depois que cheguei aqui, ele j me 
ligou quatro vezes, querendo lhe falar. Era pra voc ter ligado pra ele e ter lhe dado o seu nmero daqui.
      - Eu... ... principiou a garota, gaguejando.
      Estava sem graa por ver o irmo repreend-la na frente das colegas. Sentiu-se como uma garota de quatorze anos, e no como uma estudante de faculdade, adulta 
e independente. 
      - Acho que ainda no estou psicologicamente preparada pra conversar com o Paul, replicou. Se ele ligar de novo, diga-lhe isso, 't?
      Agora foi a vez de Wesley ficar sem graa. Sentia-se "rebaixado", como se fosse um garoto de recados, entregando mensagens entre duas pessoas que estavam "de 
mal".
      - Por que voc mesma no lhe diz?
      - Eu... ... comeou ela novamente, sem saber o que responder.
      Nesse instante, duas amigas de Katie se aproximaram da mesa e conversaram com ela alguns minutos. Com isso, Wesley foi se acalmando. Puxou uma cadeira para 
perto da irm e se sentou nela na posio contrria, apoiando os braos no encosto. Em seguida, esticou a mo, pegou metade do pozinho de Selena e se ps a com-lo.
      - Ei! protestou a garota. Espere a! Eu comprei isso! Estou com pouco dinheiro. Vai comprar um pra voc!
      - 'T bom, 't bom! Vou pegar outro pra voc! Disse ele, dando outra dentada no pedao de po e levantando-se em seguida. Algum quer mais alguma coisa?
      - Por favor, disse Katie. Veja se eles tm aquelas embalagens pequenas de pasta de amendoim. Mas quero da lisa, no da que tem pedacinhos crocantes.
      As amigas de Katie se afastaram. Wesley ainda estava no balco esperando que lhe entregassem o pozinho.
      - Voc vai contar ao Wesley a respeito do Paul? indagou Katie, inclinando-se para chegar mais perto de Selena.
      - Sei no. Esse negcio do meu irmo ficar na minha cola j est comeando a me incomodar.
      - Acho que deveria contar, comentou Katie. Se no fizer, ele vai ficar no meio dos dois. Paul ficar ligando pra ele e voc dizendo que no quer conversar 
com o rapaz. Fica meio desagradvel para o seu irmo ter de transmitir recados.
      - Voc acha isso tambm? indagou Selena, virando-se para Cris.
      Por uma frao de segundo, a garota teve a sensao de que estava na Mother Bear, sentada com suas duas amigas, as cabeas inclinadas, pertinho umas das outras. 
A diferena era que as duas ali no eram calouras da universidade, como Selena, Amy e Vicki. Ambas estavam iniciando o terceiro ano da faculdade. No que dizia respeito 
a situaes problemticas com rapazes, elas j tinham bastante experincia.
      - Sabe o que acho? disse Cris. Sei que a gente tem de falar a verdade em amor e que seria muito bom seu irmo saber dos fatos. Mas tambm no devemos espalhar 
boatos sobre os outros.
      - Voc 't pensando que eu inventei essa histria sobre o Paul? indagou Selena, caindo na defensiva.  isso que acha, que estou inventando o boato de que ele 
e Jalene tm um filho?
      Cris e Katie ergueram os olhos, espiando sobre a cabea de Selena, dando a entender que Wesley estava voltando. Imediatamente a garota se calou e ficou aguardando 
para ver se ele escutara o que ela dissera. Tinha a impresso de que falara um pouco mais alto j no final da frase.
      Wesley sentou-se. Partiu metade do seu pozinho e a colocou no pratinho da irm. Em seguida, entregou uma embalagem de pasta de amendoim para Katie. Por fim, 
virou-se para a irm e olhou-a, erguendo as sobrancelhas, como que esperando que ela explicasse o que acabara de dizer.
      - 'T bom, disse Selena, soltando o ar com fora. Um dia antes de viajarmos pra c, eu vi Jalene, a ex-namorada do Paul, na Mother Bear. Estava com um garotinho 
no colo. Bom, outro dia, ele me disse algo que me levou a deduzir que aquele menino  filho dele - dele e de Jalene, claro. Ele ainda no sabe que j sei. E tambm 
no tenho certeza se quero conversar com ele sobre isso. No domingo, Paul falou que no estava preparado para ter uma conversa comigo. Agora sou eu que no estou 
pronta pra ter um confronto com ele. Ainda no.
      Wesley fitou-a com ar de dvida.
      - Tem certeza? indagou ele.
      - Tenho. Foi por isso que lhe pedi pra dizer a ele que no estou preparada.
      - No. Eu quis dizer se tem certeza de que Paul e Jalene tm um filho. Isso  muito srio, Selena.
      - E eu no sei?
      - , interveio Katie. Mas ele estava afastado de Deus. Acho que se Deus lhe perdoou, Selena tambm deve fazer o mesmo. E os dois devem recomear a partir da. 
No devemos condenar nossos irmos em Cristo por causa dos erros do passado.
      - , tem razo, concordou Wesley e, virando-se para a irm, continuou: Sabe o que mais, Selena? Se voc no tiver uma conversa em particular com o Paul, toda 
essa questo vai virar uma bola de neve. Ento, quanto mais cedo conversar, melhor.
      A garota no concordou com ele. Wesley no sabia das elevadas expectativas que abrigara acerca do seu relacionamento com Paul. Se tentasse explicar-lhe o quanto 
essa revelao sobre Paul a magoara, ele lhe faria uma "pregao", dizendo que as garotas devem se conservar "emocionalmente virgens", etc.
      - Acho melhor ir embora daqui, disse Selena.
      Sentia que deveria sair, antes que dissesse algo de que depois se arrependesse. Pegou o copo de suco de laranja e o resto do pozinho e deslizou pelo banco 
para se levantar.
      - Vou para o dormitrio com voc, anunciou Cris.
      - Vou ficar por aqui, disse Katie. Combinei com aquelas minhas colegas que estiveram aqui que iria esper-las pra lancharmos juntas. Elas foram buscar dinheiro.
      Wesley olhou para a irm com ar paternal, o que irritou ainda mais a garota. Quando ela e Cris j iam saindo, ele disse:
      - Espero que converse com o Paul o mais breve possvel!
      - Pra que ele tinha de dizer isso? resmungou Selena enquanto as duas se afastavam da lanchonete. E como  que fui pensar que seria muito legal estudar na mesma 
faculdade do meu irmo?
      Cris no respondeu. Caminharam pelo campus sentindo o calor do Sol brilhante, naquele fim de manh. A jovem lhe perguntou se queria dar uma parada na fonte 
da praa. A princpio, Selena no queria, mas a outra insistiu e convenceu-a a parar s por um minuto. No havia ningum por ali, e com o Sol quente, a gua fresca 
se mostrava muito convidativa.
      Cris tirou as sandlias e entrou na gua, que lhe dava no meio das canelas. Selena bebeu o ltimo gole do suco de laranja e seguiu o exemplo da amiga. Assim 
que seus ps tocaram nos ladrilhos azuis do fundo, sentiu um choque no contato com a gua fria. Logo em seguida, porm, sentou-se na mureta da fonte, e as duas ficaram 
ali batendo os ps na gua. Com aquilo, sentiram-se reanimadas.
      - Eu estava pensando algo, principiou Cris. O Paul chegou a dizer que o garotinho que voc viu era filho dele?
      - No. Ele nem sabe que vi o menino.
      - Alguma vez ele lhe falou que a Jalene estava grvida?
      - No; assim claramente, no. Ele s disse que j tinha passado por isso e no queria que nos dois chegssemos at l.
      - Bom, Selena, e se o menino que viu no for filho do Paul? Quero dizer, pode ser filho de outro cara. Pode ser que no seja filho da Jalene. Ela poderia estar 
apenas tomando conta dele, trabalhando como bab naquele dia. J pensou nessa possibilidade? E se tudo isso no passar de um mal-entendido? concluiu Cris, pegando 
seu longo cabelo, retorcendo-o e colocando no alto da cabea.
      Selena no concordou com as suposies que a amiga levantou.
      - Ento, por que Paul se afastou de mim daquele jeito e disse que no queria que perdssemos o controle fisicamente?
      Cris soltou o cabelo, que caiu de volta em suas costas, desenrolando-se.
      - Bom, como no conheo o Paul, no tenho a mnima idia do motivo pelo qual ele disse isso. Mas, pelas conversas que tenho tido com o Ted, venho percebendo 
que, muitas vezes, o que vai na cabea de um rapaz  muito diferente do que se passa na nossa. Compreende o que estou dizendo?
      Selena ps a mo na testa para proteger os olhos do brilho do Sol e virou-se para a amiga, fitando-a diretamente. A luz solar se refletia na gua, batendo 
no rosto delas.
      - Uns dias atrs, por exemplo, eu e Ted estvamos em casa. Eram mais ou menos 10:00h da noite. Todo mundo tinha ido dormir. Ns dois estvamos na varanda, 
sentados no ltimo degrau da escadinha, debaixo de uma trelia que meu pai fez. Nela tem um jasmim que, no vero, principalmente  noite, desprende um perfume delicioso. 
O Ted estava sentado, e eu com as costas apoiadas do lado dele. Ele passou os braos em volta de mim. Sabe como? Assim...
      E Cris se encostou em Selena e apoiou a cabea no ombro da amiga, para demonstrar a posio em que ela e o namorado estavam.
      Selena riu.
      - Entendi, disse.
      - Pois , continuou Cris. Bem aconchegante, n? A noite estava clida, o jasmim, todo perfumado. Eu e o Ted estvamos juntinhos depois de havermos passado 
um ano longe um do outro. Conversvamos sobre o carro do Ted, o "Kombinada", se ele devia vend-lo ou no.
      - De jeito nenhum! exclamou Selena.
      - Pois bem; era isso que estvamos conversando, continuou Cris. E eu estava l sentada, pensando em como era gostoso e confortvel ficar ali, ouvindo a voz 
dele junto ao meu ouvido e fazendo planos juntos, embora fosse um plano to simples como o do carro. Estvamos juntinhos, e eu, feliz da vida.
      - Que cena perfeita! comentou Selena.
      -  mesmo, concordou Cris. Mas ns pensamos assim porque somos mulheres. Voc no vai acreditar no que aconteceu. Ted inclinou um pouco a cabea. Chegou o 
rosto perto do meu cabelo, prximo da orelha, e me deu um beijo bem aqui, continuou a jovem, indicando um ponto acima da orelha esquerda.
      Selena sorriu, deliciando-se com o lado romntico do caso da amiga.
      - De repente, prosseguiu Cris, o Ted disse: "No posso fazer isso". A nos levantamos e entramos em casa. Fui para o meu quarto e ele, para o do David. Ele 
estava dormindo num colcho no cho, no quarto do meu irmo.
      - Por que ele fez isso? Vocs brigaram? indagou Selena. Puxa, ele interrompeu um momento gostoso para os dois.
      - No, replicou Cris, sorrindo. Ele preferiu preservar um momento gostoso, em vez de criar uma situao da qual poderamos nos arrepender.
      - No entendi. Vocs estavam apenas se abraando.
      - , eu sei, contraps a jovem. A questo  que o que pra mim  apenas um abrao, para o Ted  algo mais forte. Tenho de entender e respeitar isso, embora 
no sinta o mesmo que ele. Levei muito tempo pra compreender que ns dois temos constituies diferentes. Eu sou como um forno a gs, e ele como um microondas.
      Selena riu.
      - O Ted 't sempre dizendo, continuou Cris, que a hora agora  de economizar, no de gastar.
      - O que significa isso? quis saber Selena, retirando os ps da gua fria.
      Sentiu-os formigar enquanto se secavam ao Sol. Com os ps lavados e refrescados, foi tomada por uma gostosa sensao de vigor. Por alguma razo, lembrou-se 
do texto da Bblia que fala de Jesus lavando os ps dos discpulos, como um ato de amor pelos amigos. Ser que o gesto de Cris, procurando compreender os sentimentos 
de Ted, tambm era um ato de amor por aquele "amigo"?
      - Nesses anos em que estamos namorando, explicou Cris, temos procurado no nos envolver fisicamente. Mesmo quando temos muita vontade de expressar nossa afeio 
um pelo outro, preferimos "guardar" essa afeio, e no "gast-la". s vezes imagino que estou "guardando" tais gestos em um cofrinho. Lembra-se daqueles cofrinhos 
em formato de porquinho que a gente tinha quando criana? Pois , e o nico jeito de abri-los  quebrando e derramando tudo que 't dentro.
      Selena imaginou Cris e Ted sentados bem juntinhos debaixo da trelia de jasmim, com as mos cheias de moedinhas. Cada vez que se abraavam, "gastavam" um ou 
dois centavos. Afastando-se um do outro, porm, podiam "guardar" no cofrinho as moedas de mais alto valor. Cris tambm tirou os ps da gua e girou as pernas para 
fora, sacudindo-os ao Sol quente. Em seguida, calou as sandlias. Levantou-se e virou-se para a amiga.
      - Ento, Senhorita Selena, s sei que no dia em que me casar, na minha noite de npcias, meu marido vai receber um cofrinho cheio, bem cheio! Entendeu? 
      

Captulo Quinze
      
      Selena soltou uma gargalhada ao ouvir o comentrio da amiga. Era intensamente sincera e transparente. Mais uma vez, sentiu-se muito feliz em pensar que iria 
estar ali, estudando na mesma escola, durante o ano todo.
      - , disse em tom de brincadeira, talvez eu tambm deva ir comprar um cofrinho pra mim!
      Abaixou-se e pegou um pouco de gua da fonte, que atirou em Cris. Esta deu um gritinho e uma risada, levantando as mos como que para se defender.
      - Ei! No estou precisando tomar um banho frio! Acabei de lhe dizer que estou controlando muito bem os meus hormnios!
      E as duas saram rindo em direo ao dormitrio. No alto, as copas das palmeiras balanavam ao vento, produzindo um som musical que Selena apreciou. No era 
exatamente igual ao barulho que o vento fazia na copa dos elmos que havia ao lado de sua janela, na casa onde passara a infncia. Contudo era bem parecido, o que 
fazia com que se sentisse "em casa", ali na Universidade Rancho Corona.
      Chegando ao quarto de Selena, as duas logo se puseram a abrir as malas e caixas e a arrumar tudo.
      - Voc acha que  besteira ter colchas iguais? Indagou Selena, alisando o cobre-leito verde escuro de sua cama. A me da Vicki disse que deveramos pr iguais. 
Temos at almofadas iguais. Notei que voc e a Katie no tem nada combinando.
      - , replicou Cris. Ns duas no tivemos tempo de pensar nisso. Mas as colchas de vocs vo ficar maravilhosas, j que esto combinando. Fizeram bem em escolher 
uma cor lisa. Como os quartos so pequenos, se elas fossem estampadas, iriam "enjoar" delas logo.
      - Voc precisa ver os objetos que a Vicki vai trazer. Ela tem um puff enorme, um som estreo com alto-falantes e uma mesinha-de-cabeceira. Acho que o quarto 
vai ficar muito abarrotado.
      - Ah, mas cabe tudo, disse Cris.
      E durante mais uma hora, as duas foram arrumando o aposento. Por fim, Cris se acomodou na cama da amiga, para tirar uma soneca. Selena aproveitou para dar 
uma ida ao telefone pblico que havia no corredor e ligar para a me. A chamada caiu na secretria eletrnica, e ela deixou um recado dizendo que estava bem, ajeitando 
seu quarto e passando bons momentos com as amigas.
      Depois que desligou, olhou para o papel que tinha nas mos, com o nmero do telefone do Paul. De repente, ocorreu-lhe que no poderia simplesmente tomar a 
deciso de nunca mais ver o rapaz. Afinal sua irm iria se casar com o irmo dele. Nos prximos anos, teriam de se encontrar muitas vezes. Aquilo que ela resolvesse 
a respeito do relacionamento deles iria afetar as duas famlias. Lembrou-se do pensamento que lhe ocorrera dias atrs, quando estavam indo para o restaurante mexicano. 
As pessoas se acham muito interligadas. Tudo que nos acontece tem relao com outras vidas, e no apenas com a nossa. Portanto no era bom cortar relacionamento 
com ningum.
      Entretanto ainda no se sentia psicologicamente preparada para ter uma conversa franca com Paul. Ento usou o carto telefnico para ligar para Vicki. A amiga 
tambm no estava em casa. Deixou-lhe um recado curto e em seguida discou o nmero de Amy. Mais uma vez, ouviu uma mensagem gravada. Bom, pelo menos havia tentado. 
 noite, quando todos estivessem de volta em casa, tentaria de novo. Nesse momento, ela se deu conta de que havia desperdiado algumas unidades preciosas de seu 
carto; e tinha apenas trs cartes. Quando eles acabassem, teria de dar um jeito de comprar mais. Era algo em que teria de pensar.
      Voltando ao quarto, viu que Cris ainda dormia. Pegou uma toalha e uma muda de roupa e foi em direo ao banheiro coletivo, localizado na metade do corredor. 
O aposento era bem amplo, e cada rudo que se fazia parecia retumbar. Selena achou isso engraado e se ps a cantar, "curtindo" o eco de sua voz. Da a pouco, porm, 
ocorreu-lhe que essa atitude - ficar "brincando" no chuveiro - era uma forma de fugir dos pensamentos que lhe vinham  mente. No momento talvez no fosse errado 
fazer isso.
      Voltou ao quarto sentindo-se fresquinha e revigorada. No instante em que entrou o telefone tocou. Cris se remexeu na cama, mas Selena conseguiu atend-lo antes 
que a amiga o pegasse.
      - Oi, pessoal.  Katie. Cris est a?
      - Sim, mas est tirando uma soneca.
      - Diga pra ela que tem algum aqui querendo v-la. Vou mand-lo a para o seu dormitrio.
      Cris sentou-se na cama e, meio sonolenta, indagou:
      - Que ?
      - Katie, explicou Selena. Disse que tem algum l querendo v-la.
      - Quem?
      - Katie, continuou a garota, virando-se para o aparelho, Cris quer saber quem .
      - Pergunte-lhe se ela conhece algum surfista louro e alto.
      Selena sorriu.
      -  o Ted, respondeu para a amiga. E ele j est vindo pra c.
      - 'T? indagou Cris, acabando de se levantar e arregalando os olhos. Por que ser que ele 't aqui? Achei que s viria no final de semana.
      -  Katie, a Cris quer saber por que ser que ele veio aqui.
      - Por que ele veio aqui? repetiu a jovem. Ah, qual ? Diga-lhe que se ela no o quiser, pode mand-lo de volta pra c, e que ele pode me convidar pra jantar...
      Selena virou-se para Cris.
      - Katie disse que...
      - Eu escutei, replicou a jovem. Diga pra ela que de maneira nenhuma e que eu disse isso "numa boa".
      Selena estivera segurando o fone afastado do ouvido e, nesse momento, chegou-o ao rosto.
      - Escutou?
      - Escutei. Ento diga pra ela que na prxima vez em que ele aparecer aqui oferecendo um jantar, e ela no estiver por perto, no vou ficar procurando-a, no. 
E estou dizendo isso "numa boa" tambm.
      Cris pegou a escova de cabelo da Selena e se ps a desembaraar seu longo cabelo. Selena riu e desligou. J ia transmitindo o recado de Katie quando o telefone 
tocou novamente. Era a telefonista do saguo do dormitrio.
      - A1!  Selena Jensen? indagou a moa.
      - .
      - Tem uma visita aqui pra voc, Selena, disse a telefonista, com voz suave e agradvel.
      Imediatamente Selena imaginou quem era.
      - Obrigada, disse. Diga pra ele que deso j.
      Desligou e virou-se para Cris.
      - Meu irmo est aqui. Aposto que veio dar uma olhada em mim de novo. Sabe? Eu achava que ia ser timo estar perto dele e que, quando tivesse algum problema, 
poderia ir me desabafar com ele. Mas se o Wesley continuar agindo assim o ano inteiro, vai me deixar maluca.
      - Voc e o Wesley poderiam vir jantar conosco, comigo e Ted, disse Cris. Vamos l. Pegue sua chave e vamos.
      - Meu cabelo ainda est ensopado, reclamou Selena.
      - Ah, com poucos minutos seca, interps Cris. Pelo menos voc est toda limpinha e perfumada, e eu ainda no tomei banho.
      As duas desceram apressadamente pelo corredor e entraram no elevador para irem ao saguo onde as estudantes recebiam suas visitas. O salo de entrada do dormitrio 
era muito bonito e bem decorado, mais parecendo um saguo de hotel. No centro do prdio, de formato retangular, havia uma rea a cu aberto. O assoalho em redor 
era calado com lajotas. Bem no meio, viam-se vrias rvores e arbustos, lembrando uma pequena floresta. Havia alguns bancos por ali, e no centro, uma pequena fonte.
      Selena correu os olhos pelo lugar a procura do irmo, mas no o viu. Pelo visto, o Ted tambm no se achava por ali.
      - Pelo que conheo do Ted, disse Cris entrando no meio das rvores, ele deve estar subindo numa dessas palmeiras.
      Selena seguiu-a e viu um rapaz andando do outro lado das rvores, como se a estivesse examinando ou tentando se esconder.
      - O que voc acha? indagou Cris.  o seu ou o meu?
      De onde estavam, s dava para ver uma camiseta de cor cinza.
      -  o seu, replicou Selena, fazendo uma suposio.
      Nesse instante, o rapaz saiu de trs da rvore e elas viram um rosto.
      - Oh! exclamou Cris surpresa. Nem o seu nem o meu.
      - No, corrigiu Selena, falando lentamente.  o meu.
      Cris pegou de leve o brao da amiga.
      -  o Paul? indagou.
      Em vez de responder, Selena foi caminhando em direo ao rapaz, no mesmo passo em que ele se dirigia para ela. Paul parecia muito srio. Via-se que trajava 
as roupas de trabalho, ainda meio empoeiradas. A garota deduziu que ele viera direto do servio, aps um longo e cansativo dia.
      - Oi! disse ele.
      - Oi! respondeu Selena.
      Apesar de estar sujo e suado, era maravilhoso. Selena teve de esforar-se para controlar as emoes e pensar em algo para dizer. Paul olhou para Cris, que 
se achava atrs da garota. Selena apresentou-os um ao outro rapidamente. Em seguida, explicou que conhecera a jovem na Inglaterra e que fora com ela que viajara 
 Sua, algum tempo atrs. Paul fez um aceno de cabea e comentou:
      - Tambm estou voltando da Europa. Passei um ano na Esccia.
      - , Selena me contou, retorquiu a jovem.
      E no momento em que dizia isso, Selena avistou o Ted que se aproximava por detrs da Cris bem devagarinho. Estava vestido com uma camiseta azul-claro, que 
fazia ressaltar seus olhos azul-prateados. Com uma expresso brincalhona no rosto, ele ps um dedo sobre os lbios, indicando a Selena que no devia dizer nada. 
Paul tambm entrou na brincadeira. De repente, sem que Cris tivesse tempo de perceber o movimento, Ted veio por trs e tomou-a nos braos, pegando-a no colo. A jovem 
soltou um grito, que foi logo abafado pela voz dele.
      - Mim Tarzan... voc... Ei, voc no  Jane!
      Ele a ps no cho, e ela se virou para o namorado com ar de espanto.
      - Oh, Ted, disse, que foi que deu em voc?
      - Sempre tive vontade de fazer isso, explicou o rapaz com seu costumeiro jeito tranquilo. Oi, Selena! Como tem passado?
      A garota apresentou-lhe o Paul, e os quatro ficaram ali, meio sem saber o que fazer ou dizer.
      - Voc quer jantar, Cris? perguntou Ted afinal.
      - Quero, replicou a moa e, virando-se para Selena e Paul indagou: Querem vir conosco?
      Paul e Selena se entreolharam um pouco sem jeito.
      - Acho que sim, replicou a garota, no sabendo bem o que responder.
      - Na verdade, interps Paul, eu queria ter uma conversa com voc, Selena.
      - Ento, acho melhor os dois irem jantar, disse a garota. Depois a gente se v.
      - Ento 't, concordou Ted. Mais tarde. Depois a gente se v por a, Paul, concluiu ele, fazendo um aceno de cabea para o outro.
      Paul acenou tambm e o casal saiu, de mos dadas. Selena teve a impresso de que Ted parecia muito feliz, de que era o instante mais feliz de sua vida. E por 
que no? Cris estava de volta e "a distncia entre eles era de apenas um passo". Tivera esperanas de que ela e Paul tambm estivessem felizes juntos. Agora, porm, 
todas as suas emoes se achavam como que presas num completo emaranhado. E no sabia se algum dia conseguiria solt-las.
      - Vi um banco ali, disse Paul, apontando para o lugar onde Selena o avistara. Estava procurando um cantinho mais afastado pra conversarmos.
      Ele caminhou para o centro do jardim e acenou a Selena para que o seguisse. Foram em direo a um banco que estava no canto direito. A mente da garota estava 
a mil, pensando nos diversos rumos que a conversa poderia tomar. Poderia dizer ao rapaz que vira Jalene com o filho deles e que ele no precisava mais esconder dela 
esse fato. E o que diria depois? Que isso no tinha importncia para ela? Que os dois poderiam continuar da? Que ela se contentaria em ficar sentada com ele no 
segundo degrau da escada e no avanar mais no relacionamento fsico? Nesse momento, no tinha certeza nem se queria estar ao lado dele, quanto mais "subir" algum 
degrau. De repente percebeu a ironia da situao. Depois de passar vrios anos sendo conhecida como a "rainha da confrontao", a ltima coisa que desejava nesse 
momento era uma conversa franca com Paul.
      
      
Captulo Dezesseis
      
      - Este lugar  lindo! disse Paul, sentando-se no banco e indicando a Selena que se sentasse ao seu lado.
      A garota acenou, concordando.
      - Agora entendo por que voc gostou tanto desta escola, como disse nas cartas, continuou ele. Depois que vi o campus, fiquei ainda mais interessado em vir 
estudar aqui.  bem diferente da Universidade de Edimburgo.
      Paul estava olhando para Selena, mas esta sentia certa dificuldade em encar-lo.
      - Selena, disse ele, procurando fazer com que ela prestasse ateno nele, quer me dizer o que est acontecendo?
      A garota mordeu o lbio inferior.
      - No entendo por que no me ligou, continuou ele, falando em voz baixa, num tom calmo. Reconheo que aquele dia, no salo da igreja, no foi o momento adequado 
para falar em restries para o nosso envolvimento fsico. Mas queria que voc compreendesse que sbado  noite fiquei assustado. Estvamos indo depressa demais 
na intimidade fsica.
      - Entendo, replicou ela, em voz suave.
      - Ento, por que no me ligou?
      - Ainda no estava preparada pra conversar com voc.
      Paul passou o brao pelo encosto do banco e apoiou o rosto, ainda sem barbear, nos dedos.
      - Por qu?
      Selena percebeu que essa era a "deixa" perfeita para contar a ele que sabia tudo a respeito de Jalene e do filho, mas no conseguia. Sentia-se incapaz de pronunciar 
aquelas palavras. Como no estava acostumada a "segurar" a lngua, pegou seu pendente em formato de lrio, pondo-se a gir-lo entre os dedos. Cad toda aquela sua 
coragem e franqueza? pensou.
      Paul estendeu a mo e pegou uma mecha de seu cabelo, que ainda se achava molhado, e a tirou do ombro, jogando-a para trs.
      - Olhe aqui, disse ele, ns dois ainda no conversamos sobre nossos namoros anteriores.
      Selena virou-se e encarou-o, preparada para ouvir sua confisso.
      - Queria lhe dizer que entendo que voc pode ter se envolvido fisicamente com outros rapazes e, portanto, est esperando mais de mim tambm. O problema  que 
estabeleci um padro de conduta mais rgido pra minha vida. Talvez devssemos ter conversado sobre isso antes.
      Selena estava estupefata.
      - Voc acha que tive envolvimentos fsicos com outros rapazes?
      Paul fitou-a com ar compreensivo.
      - Espere! disse ele. No precisa me contar nada. No estou aqui pra julg-la. S estou querendo dizer que, no sbado  noite, voc me deu a impresso de que 
parecia acostumada a contatos fsicos, a abraos e beijos. Mas acontece que no quero ter esse tipo de relacionamento com voc. Foi por isso que achei melhor no 
continuar com os abraos.
      A garota olhou para ele no querendo acreditar no que ouvia. No conseguiu dizer nada a no ser repetir o que ele dissera.
      - Eu parecia acostumada a ter contatos fsicos?
      Paul fez que sim.
      - Voc pode ter agido assim com outros rapazes, mas no quero isso. Pretendo ir mais devagar.  o que sempre quis. Foi por essa razo que preferi que escrevssemos 
um para o outro, em vez de nos comunicarmos por e-mail. No estou querendo julg-la, com relao ao que fez no passado. Quero apenas dizer que  assim que desejo 
que nos relacionemos.
      Selena se levantou de um salto, irada.
      - Voc no est querendo me julgar?
      Paul tambm se levantou, espantado com a reao dela. Selena j ia replicar que era uma garota pura e sem maldade, e que ele fora o nico rapaz a quem ela 
dera demonstraes fsicas, e isso acontecera no sbado  noite. Nesse momento, porm, duas jovens vieram caminhando na direo deles, conversando em voz alta. Paul 
e Selena ficaram parados, imveis, aguardando que elas passassem.
      A raiva que Selena sentia era maior que qualquer argumento racional de sua mente, e ela soltou o que lhe ditava a emoo.
      - Voc realmente tem moral pra chegar aqui "perdoando" meu passado, n? E o seu?
      Paul olhou-a espantado.
      - Que  que tem o meu? indagou ele em voz alta, correspondendo  intensidade do tom que Selena usara com ele.
      - Voc e Jalene.
      - Que  que tem eu e Jalene?
      - Ah, deixa disso, Paul! Voc escondeu de mim o tempo todo, mas na semana passada eu a vi e compreendi tudo.
      - Compreendeu o qu?
      - Eu vi o menino, Paul. Vi-o com Jalene e entendi por que voc queria passar por Portland, em junho.
      - Queria ir a Portland pra ver voc, explicou ele em voz alta.
      - E mais algumas pessoas, pra acertar algumas coisas. No foi isso que disse?
      Paul ainda se mostrava confuso e frustrado.
      - Aonde voc est querendo chegar, Selena? No estou entendendo nada.
      - Ah, no est, no?
      - No, insistiu ele, baixando a voz. No estou entendendo. Quer fazer o favor de explicar o que est querendo dizer?
      - O.k.; vou dizer.  sobre a Jalene, disse ela, fitando-o intensamente, mais parecendo um advogado apresentando seus argumentos finais para o corpo de jurados. 
Jalene e o garotinho.
      E ela disse a ltima palavra num tom mais enftico, erguendo as sobrancelhas, com uma expresso significativa.
      - E como voc no me contou, prosseguiu, eu mesma deduzi tudo. E pra ser sincera, ainda no sei bem se posso confiar em voc. Achei que...
      - Achou o qu? indagou o rapaz, interrompendo-a e cruzando os braos.
      - Achei...
      - Achou que o garotinho que viu com Jalene era meu filho? concluiu ele com o rosto vermelho.
      Selena tambm cruzou os braos, assumindo um ar de firmeza.
      - Tambm no estou querendo julgar seus atos do passado, disse. Mas teria sido muito melhor se voc mesmo me tivesse contado.
      - Escute aqui, Selena, falou ele em tom determinado, no lhe contei nada porque no havia nada pra contar. No sei quem  o pai do garotinho da Jalene, e no 
sei o que ela lhe disse. Mas de maneira nenhuma ele pode ser meu filho. De jeito nenhum! Isso simplesmente  impossvel!
      -  mesmo?
      - . E no sei como pde supor que ele  meu, Selena. Como voc foi chegar a essa concluso?
      Em vez de pedir desculpas pelo engano, a garota deu vazo  sua raiva.
      - E a suposio que voc fez a meu respeito? Acabou de dizer que achava que eu estou acostumada com contatos fsicos, dando a entender que sou muito liberal 
nessa questo. Pois bem, Paul, pode arranjar outra suposio. Nunca houve nenhum outro cara na minha vida. Jamais! Nenhum sequer!
      O rapaz abrandou a expresso facial.
      - E o Ronny?
      - Ele  apenas um colega.
      - E aquele rapaz que voc disse que ficou conhecendo na Sua?
      - Alex? indagou ela com uma risada. Ele s me deu um abrao quando se despediu de mim no aeroporto; e encostou o rosto no meu. Acha que isso  intimidade fsica?
      - E no houve mais ningum?
      - Bom, vamos ver. Houve o Drake. Uma vez, quando estvamos fazendo uma caminhada com o cachorro l de casa, ele passou o brao no meu ombro. Ah, e outra vez, 
ns oramos dentro do carro dele, e a ele segurou minha mo.
      Paul se ps a esfregar a nuca, como que querendo relaxar a tenso muscular.
      - Paul, principiou a garota em voz alta, ainda meio irritada, estes meus lbios so os mais virgens do mundo todo. Eles esto comigo h quase dezoito anos, 
e s beijei o rosto de avs, pzinhos de bebs e o Brutus.
      - O Brutus?
      - O cachorro l de casa.
      - Ah, fez Paul.
      Ao que parecia, o desabafo de Selena o havia acalmado um pouco.
      - , disse, entendi mal. Do jeito que voc veio pra mim sbado  noite, achei que tinha mais experincia nessa questo.
      Selena sentiu como que um choque emocional, como se uma corda de violo houvesse rebentado.
      - Do jeito que eu fui pra voc no sbado? repetiu, gritando. No acredito que est dizendo uma coisa dessas! Foi voc que me levou pra praia e me abraou naquele 
cantinho, nas rochas, e recitou sua poesia. E agora quer me dizer que no foi voc que veio pra mim?
      - Foi isso que voc achou?
      - Achei que estava agindo comigo como agiria com uma namorada.
      - E voc? O que estava fazendo? indagou Paul.
      - Agindo como agiria com meu namorado. Alis, seria o primeiro namorado que tive em toda a minha vida, se  que isso importa agora.
      Paul esfregou a nuca de novo.
      - E isso que ns somos? Est querendo dizer que agora estamos namorando? Somos namorados, Selena? Perguntou ele, olhando para ela, o queixo firme, uma tenso 
no olhar, aguardando uma resposta.
      

Captulo Dezessete
      
      Selena cruzou os braos  altura da cintura. Sentia um pouco de dor no estmago. Temia que roncasse alto demais e o rapaz escutasse.
      - No sei, replicou, erguendo o queixo num gesto meio atrevido. Diga voc. O que ns somos?
      - No sei, disse ele, tambm cruzando os braos. Talvez no esteja disposto a resolver isso agora, sob presso.
      - E quem  que o est pressionando? quis saber Selena. No eu.
      - Tem razo, disse o rapaz, batendo a palma da mo na testa, num gesto meio exagerado. Voc no est me pressionando. Alis, voc nem me ligou, apesar de eu 
ter lhe pedido que me telefonasse. Ento fiquei a me indagar qual era o problema; e vim do trabalho pra c, correndo, pra saber o que est acontecendo. E a est 
voc, imaginando que tive um passado pecaminoso.
      Selena sentiu o impulso de lhe pedir desculpas, reconhecendo que errara ao tirar concluses apressadas. Contudo no conseguiu. Ainda estava chateada por ele 
tambm ter tirado concluses erradas a respeito dela.
      - Ah, ? E o passado pecaminoso que voc imaginou que eu tive? Isso no conta?
      Antes que Paul respondesse, Katie apareceu ali.
      - Oi, crianas! gritou ela do outro lado da rea. Sabem se o Ted e a Cris j foram jantar?
      Aproximou-se dos dois.
      - Voc deve ser o Paul, disse, dando um murro de leve no ombro dele, j estava me indagando quando  que iria conhec-lo. Selena me contou tudo a seu respeito.
      -  mesmo? perguntou o rapaz, dando uma espiada para Selena e em seguida voltando a olhar para Katie. E contou sobre um determinado garotinho l de Portland 
que acham que  meu filho?
      Katie fitou o rapaz fixamente. Em seus olhos verdes, transparecia uma sincera expresso de compaixo. Fez um aceno ele cabea, respondendo que sim, e acrescentou:
      - Mas sabe o que eu disse pra ela? Bobagem! Passado  passado! Se voc j acertou tudo com Deus, ento agora  s seguir em frente. Certo?
      Paul hesitou por um instante, mas logo em seguida disse:
      - Certo. Agora  s seguir em frente.
      Ele olhou para Selena com uma expresso de dor no olhar e depois, com voz bem calma, concluiu:
      - Sabe o que mais? Acho que no consigo fazer isso.
      E passando pela garota, saiu caminhando em direo  porta.
      Selena sentiu o corao batendo forte, latejando na garganta. Dentro dela, algo lhe dizia para correr atrs dele, mas no conseguiu nem se mexer.
      - O que houve? indagou Katie. Foi algo que eu disse? Se foi, peo mil desculpas.
      - No, Katie. Fui eu. Estraguei tudo. Estraguei pra valer! Paul e Jalene nunca tiveram um filho, no. Fiz uma suposio errada. E no deveria ter dito nada 
pra voc e Cris.
      - Ento vai conversar com ele e dizer-lhe tudo isso, falou a jovem, apontando na direo em que Paul se fora.
      - No d, no, respondeu Selena, sentando-se no banco, os braos ainda apertando o estmago. Est tudo muito atrapalhado. E ainda estou com raiva dele. Paul 
tambm achou que j tive muitos relacionamentos fsicos antes. E est pensando que o estou pressionando pra me namorar. Acho que vou vomitar!
      - Ei, mas no vomite aqui, no! interps Katie, pegando o brao da garota e pondo-a de p. V para o seu quarto. Vou procurar o Paul e conversar com ele.
      - No, Katie. Deixe pra l!
      - Ei! Isso  o mnimo que posso fazer por voc, depois do que aconteceu. Volte para o seu quarto, que depois eu ligo, 't? Tenho de lhe pedir desculpas, insistiu 
ela, j se afastando de Selena. Tenho de correr, seno ele vai embora e no o alcano.
      Com isso, saiu correndo em direo  porta da entrada.
      Selena chamou a amiga de novo, mas afinal desistiu e seguiu para o quarto. A cada passo que dava, recordava-se vividamente das suposies que Paul fizera a 
seu respeito. A mgoa e o sentimento de frustrao que a dominavam iam aumentando mais a raiva que sentia e que ainda no se "esfriara" em seu interior.
      Desceu pelo corredor, pisando forte. Entrou no quarto e bateu a porta atrs de si - algo que os pais jamais haviam permitido que fizesse em casa. Quando era 
bem pequena tinha repentes que a me chamava de "fortes demonstraes de independncia", eles haviam procurado reprimir nela esse hbito.
      Pois nesse momento, tinha muita vontade de dar uma daquelas "fortes demonstraes". E no havia ningum ali para impedi-la. Nem para castig-la. Nem para escutar 
seus desabafos. Nem para consol-la. Estava sozinha.
      Pegou uma das almofadas da cama e atirou-a na parede. No adiantou nada. Ento se ps a caminhar de um lado para o outro, tentando encontrar algum sentido 
em tudo aquilo, analisando cada emoo que sentia, para identific-las.
      Primeiro, reconhecia que estava arrependida de ter tirado a concluso precipitada de que Paul e Jalene tinham um filho. Deixara a imaginao correr solta ali. 
Por que no dera ouvidos ao Wesley e a Cris, que tentaram fazer com que ela pensasse em outras explicaes possveis sobre o garotinho que estava no colo da Jalene? 
Por que sempre se deixava levar por suposies impulsivas e rigorosas? Paul tinha toda razo de estar aborrecido com ela, tinha todo o direito de estar furioso. 
E se ele no quisesse nunca mais olhar para ela, nem poderia reclamar.
      Outra emoo que abrigava naquele instante era a raiva que sentia dele, pelo fato de o rapaz ter feito suposies a seu respeito. Aquilo no fora justo. Ficara 
muito magoada com isso, bem magoada mesmo.
      E por que ele fora embora daquele jeito, fugindo do problema? Por que no ficara ali para conversarem e resolverem tudo? Selena achava que era prefervel discutir 
sobre uma questo, e at brigar, a deixar para l e ficar calada.
      A se lembrou do rapaz, com o rosto vermelho e os braos cruzados. Essa imagem a fez sorrir, a despeito de tudo que sentia.
      Ento esse cara tem sangue nas veias! pensou.
      Nunca havia notado essa caracterstica dele. Existem realidades que no se transmitem por meio de palavras, mesmo que se escrevam dezenas de cartas. E o pior 
de tudo era que essa facilidade que Paul tinha para comunicar com clareza aquilo que sentia e pensava deixava Selena ainda mais apaixonada por ele. Sabia muito bem 
que jamais conseguiria gostar de um rapaz que no tivesse sentimentos intensos, como acontecia a ela. Tampouco poderia respeit-lo. E tambm no queria terminar 
se casando com um homem que deixasse que ela o dominasse numa discusso. Ao compreender isso, percebeu que a raiva se acalmava.
      Pegou o liriozinho de prata na correntinha e o levou aos lbios.
      Oh, Paul, me desculpe! pensou. Volte, por favor! Quero lhe pedir perdo.  Pai, faa com que ele volte, Senhor! No posso deixar o Sol se pr sobre a minha 
ira. Preciso acertar tudo com o Paul.
      E Selena ficou ali, em meio ao silncio, orando, pensando e aguardando. Como Katie estava demorando a ligar, resolveu comer uma barra de cereal e tomar suco 
de ma, para amenizar um pouco a solido. No adiantou muito.
      Pegou outra barra e j ia comear a com-la quando ouviu uma batida a porta. Era Katie, que entrou abanando a cabea.
      - No o encontrei, disse. Ele deve ter estacionado perto do porto e ter ido embora imediatamente. Sinto muito, Selena. Fiquei pensando nisso tudo e estou 
me sentindo pssima. No deveria ter tirado aquelas concluses a respeito do Paul, antes de saber todos os fatos.
      - , concordou Selena. Eu sei. Mas a culpa foi minha, no sua. Fui eu quem tirou aquela concluso apressada, e no voc.
      Katie deixou-se cair na cama de Selena e ficou deitada de costas, olhando para o teto.
      - Voc j orou a respeito disso? indagou.
      - J.
      - E o que voc acha que deve fazer?
      - No sei bem. S que quero conversar com ele.
      - Podamos pegar o meu carro e ir at a casa dele em San Diego, ou melhor, v voc sozinha, sugeriu Katie, virando-se de lado e encarando a amiga, que estava 
sentada na beirada da cama, muito tensa.
      - No sei onde  a casa dele, replicou. Talvez eu possa ligar pra Tnia e lhe pedir pra me ensinar.
      - Voc sabe o endereo? indagou Katie. Podemos consultar a internet pra saber como se chega l.
      - E se ele ligar pra c? interps Selena. E se quando estiver indo pra casa ele se acalmar, como eu me acalmei? A talvez ele me ligue ou volte aqui.
      - Vamos fazer o seguinte. Vou  biblioteca, consultar o computador, e voc fica aqui.
      - Voc faria isso por mim? perguntou Selena.
      - 'T brincando? Como ltimo membro do Clube A.A.,  meu dever ajudar ex-associadas sempre que houver necessidade.
      Selena demorou alguns instantes para entender do que ela estava falando. Assim que compreendeu, sorriu.
      - Ah, 't certo, comentou. Voc est se referindo ao nosso Clube Apenas Amigas, que criamos na Inglaterra. Ns duas juramos que iramos ser apenas amigas dos 
rapazes, pra no passarmos pelo sofrimento que nossas colegas estavam passando com o namorado.
      E nesse momento, ela sentiu certa tristeza ao constatar um fato.
      - , disse, parece que depois de conversar com o Paul, tambm vou voltar para o clube. Quero dizer, se ele ainda quiser ser meu "amigo".
      - Ele vai querer, assegurou Katie, num tom confiante. Quando o vi l, ao seu lado, conversando com voc, compreendi na hora que era ele. E sinceramente, o 
primeiro pensamento que me ocorreu foi que vocs dois combinam muito bem. Parecem feitos um para o outro.
      - Por que voc acha isso?
      - Porque sim. Alguns casais parecem combinar muito bem.  o caso do Douglas e da Trcia, Cris e Ted. Voc e Paul tambm combinam.
      Selena soltou um suspiro profundo.
      - , disse, vamos ver.
      

Captulo Dezoito
      
      Alguns minutos depois que Katie saiu, o telefone tocou. Por uma frao de segundo, Selena pensou em no atender.
      Vou mostrar pra ele! pensou, com um sentimento de rebeldia. Ele acha que estou aqui esperando-o.
      Contudo nunca fora de seu temperamento fazer-se de durona. Ento, na segunda vez que tocou, correu para o aparelho.
      - Ainda bem que voc est a, disse uma voz masculina.
      Selena suspirou.
      - No estou com vontade de comer nada, disse, se  isso que voc vai dizer, Wesley.
      - No, replicou ele. Estou ligando  pra lhe pedir um favor, e no pra cham-la pra jantar.
      - O que ? No me pegou numa hora muito boa.
      - Ser que voc pode ir at a igreja daqui a uns dez minutos?
      - Pra qu?
      Wesley no respondeu logo.
      -  muito importante, Selena, disse afinal. Eu raramente lhe peo pra me fazer um favor. Agora estou lhe pedindo isso.  s essa vez. Voc faz isso pra mim 
sem que eu lhe d os detalhes?  s dizer "sim" ou "no". Pode ir  igreja daqui a mais ou menos dez minutos?
      A garota respirou fundo.
      - 'T bom! replicou.
      Calculou que, enquanto fosse  igreja para atender a esse misterioso pedido do irmo e retornasse ao quarto, Katie teria conseguido elaborar um mapa para irem 
 casa de Paul E caso o rapaz ligasse nesse meio tempo, poderia deixar um recado para ela. Assim ela telefonaria para ele depois, com o esprito mais calmo.
      - Dentro de dez minutos estarei l, Wesley.
      - timo, Selena! Muito obrigado!
      A garota desligou e deu uma espiada para sua imagem no espelho. O cabelo havia secado durante a acalorada discusso com Paul. O arroxeado do olho melhorara 
bastante e seu rosto agora estava calmo. Nele no havia mais nenhuma expresso que revelasse a raiva e a frustrao que experimentara momentos atrs. Escreveu um 
bilhetinho para Katie. Pegou a chave do quarto e saiu, pregando na porta o papel com o recado.
      Caminhando pelas ruas do campus, Selena calculou que o irmo desejava conversar com ela para lhe pedir que no tirasse concluses apressadas sobre o Paul. 
Aquela igreja talvez fosse o ponto mais afastado, o melhor lugar para conversarem em particular. E se seu irmo estava para lhe dar uma repreenso, seria bom que 
fosse num canto afastado. Ela tambm tinha algo a lhe dizer. J se convencera de que no deveria mesmo tirar concluses precipitadas. O que ainda no sabia era como 
iria fazer as pazes com Paul. Esperava que Wesley estivesse com bastante pacincia, pois iria lhe contar tudo. Assim ele poderia lhe dar alguma orientao.
      Selena pensou no quanto era irnico o fato de que agora queria o conselho do irmo. Percebeu como estivera com idias contraditrias nos ltimos dias. Seria 
isso um aspecto da transio para essa fase da vida, em que teria de cuidar de si mesma? Em que teria de descobrir a maneira certa de agir no relacionamento com 
Paul? Se fosse, ento precisava urgentemente encontrar uma situao tipo meio-termo, um "terreno" mais tranqilo.
      A Universidade Rancho Corona ficava num plat, numa rea de cerca de oitenta mil metros quadrados. A igrejinha se encontrava num extremo, na parte sudoeste 
da propriedade. Caminhando at l, em meio ao ar fresco da tarde, Selena se sentiu revigorada. Lembrou-se de que a Bblia menciona que Deus caminhava com Ado e 
Eva durante o entardecer, no Jardim do den. Tentou imaginar como seria a sensao de caminhar com Deus e conversar com ele. De repente se deu conta de que o mesmo 
Deus que conversara com a primeira mulher do mundo tambm se achava ao seu lado. Estava ali, invisvel, andando junto dela, por essa estradinha que ladeava a campina.
      Obedecendo a um impulso, comeou a falar com ele em voz alta.
      - Com certeza, eu e o Paul no somos os primeiros a ter um conflito, somos? indagou. Claro que no  certo ter conflito, mas pelo menos no  novidade.
      A nica resposta que recebeu foi o sopro da brisa em seu rosto. Ento se lembrou de que o relacionamento mais importante que deveria ter era com Deus. Ele 
nunca a deixaria. Nunca faria suposies incorretas sobre ela. Alis, j sabia tudo a seu respeito. Tambm nunca iria querer encerrar seu relacionamento com ela. 
Em sua Palavra, ele dizia que tinha por ela um amor eterno.
      Sentiu desejo de chegar logo  igrejinha e apressou o passo. Seria bom ajoelhar-se e orar naquele recinto silencioso, antes que Wesley chegasse. Desejava reafirmar 
sua f em Cristo e entregar ao Senhor, de forma consciente, o relacionamento com Paul. Sentiu-se dominada por certa ansiedade e, quando entrou no caminhozinho que 
ia dar na porta da capela, o vento aumentou. Parecia empurr-la em direo quele lugar sagrado.
      Abriu a porta devagar e espiou l dentro. No havia ningum ali, e ficou alegre com isso. Foi andando p ante p at o altar, na frente da igreja, e se ajoelhou, 
juntando as mos. No alto, acima do altar, havia um vitral colorido, em que se via o emblema da fazenda que existira naquela propriedade que depois se transformou 
em escola. Era uma coroa de ouro, dentro da qual havia uma cruz, ligeiramente inclinada. Abaixou a cabea e notou que um feixe de luz atravessava o vitral e vinha 
bater em seu peito, exatamente sobre o corao.
      Fechou os olhos e se ps a orar.
      - Senhor Deus, muito obrigada por teres me trazido aqui para esta escola. Quero te honrar com o meu viver. Quem que meu relacionamento com os outros, e principalmente 
com o Paul, seja da maneira como t queres.  Deus, perdoa-me por ter criado essa confuso e d-me oportunidade de recomear tudo. No sei bem como agir nessa questo 
de namoro, Senhor. Peo-te que me ensines. Quero confiar em ti com relao a todos os aspectos da minha vida. Eu te amo, Jesus.
      No momento em que Selena disse "Amm", escutou a porta da igreja se abrir. Pensou que talvez devesse levantar-se rapidamente para que o irmo no a visse ajoelhada. 
Na verdade, porm, isso no importava mais. Acabara de passar instantes maravilhosos com o mesmo Deus que andara com Eva no Jardim do den. Ento no havia nenhuma 
razo para que se escondesse, como fizera Eva, depois que desobedecera ao Pai. Deus lhe perdoara. Tinha certeza disso. Podia encarar o Wesley e o prprio Senhor 
sem nenhum constrangimento.
      No se virou para olhar para o recm-chegado. Ficou ouvindo os passos dele se aproximarem. Queria permanecer mais um pouco ali, olhando a luz que entrava pelo 
vitral. Queria "curtir" aquela sensao de limpeza e leveza espiritual que experimentava.
      Sentiu a mo dele em seu ombro e impulsivamente inclinou a cabea, encostando o rosto nela. Deu-lhe um leve beijo e disse:
      - J sei o que voc vai dizer.
      - Ah, sabe? indagou uma voz as suas costas.
      No era Wesley. Selena ficou imvel. Paul ajoelhou-se ao lado dela. Selena foi se virando lentamente para encar-lo. Agora j no tinha o menor desejo de "brigar".
      - Perdoe-me! disse ela, assim que seus olhos encontraram os dele.
      - Eu tambm peo que me perdoe, replicou o rapaz. No sei ao certo o que aconteceu. S sei que em vez de ir embora, resolvi ir conversar com seu irmo. Agora 
estou reconhecendo que fiz bem.
      Selena notou que ele vestira uma camisa limpa. Era de mangas curtas, azul e de algodo. Pertencia a Wesley, que a comprara h pouco tempo. Alm disso, Paul 
estava com aparncia de quem tomara banho. Obviamente se acalmara, talvez debaixo de um chuveiro frio. Parecia disposto a conversar, como a garota.
      - Sabe o que acho? principiou ele.
      Selena aguardou que continuasse.
      - Acho que comeamos tudo errado, disse Paul. Queria que a gente "acertasse os ponteiros".
      - Tambm quero, replicou Selena. S agora entendi que estava com expectativas erradas e tinha feito muitas suposies.
      - Eu tambm, concordou Paul. Vamos recomear, mas avanando bem devagar, 't?
      Selena fez que sim.
      - Preciso lhe pedir desculpas, prosseguiu o rapaz, por no haver falado nada antes de cham-la para irmos caminhar na praia. Reconheo que acabei ficando muito 
 vontade com voc, no que diz respeito ao contato fsico. Foi por isso que depois lhe disse que no queria que nossa relao tomasse esse rumo.  que a gente poderia 
criar a idia de que toda vez que nos encontrssemos teramos de andar de mos dadas, ou algo assim, para manter o relacionamento. Est me entendendo?
      - Estou, replicou Selena, acomodando-se melhor e sentando-se no cho, em frente ao altar.
      - Copiei uns versculos de 1 Tessalonicenses, continuou Paul, sentando-se tambm,  frente dela.
      Os dois conversavam em voz baixa, num tom mais brando e carinhoso, bem diferente do que haviam usado na discusso anterior. O rapaz tirou do bolso traseiro 
um pedao de papel dobrado e disse:
      -  assim que quero que o nosso relacionamento seja.
      Em seguida, ele leu rapidamente os primeiros oito versculos do capitulo 4 de 1 Tessalonicenses. Quando terminou, Selena pediu que relesse uma parte do texto. 
E ele leu:
      - "Porque Deus deseja que vocs sejam santos e puros, e se conservem afastados de todo pecado sexual, a fim da que cada um de vocs se case em honra e santidade" 
(BV).
      Em seguida, olhando para Selena, continuou:
      - No sei com quem voc vai se casar, mas no quero fazer nada que possa desonr-la, nem ao seu futuro marido, seja ele quem for. Ento no desejo que me d 
aquilo que dever dar a ele, e s a ele.
      Selena sentiu o corao cheio de ternura pelo rapaz.
      -  por isso, continuou Paul, que no quero tirar proveito de voc, com um envolvimento fsico precoce.
      - Sabe o que mais? Tambm no quero tirar proveito de voc, no. No pretendo que me d nada que dever dar pra sua futura esposa. Contudo tenho de lhe dizer 
algo. Pra mim, tudo o que voc diz tem muita importncia. Vou avaliando nosso relacionamento com base no que me fala ou escreve. Ento, se voc escreve um poema 
s pra mim, deduzo que est querendo aprofundar nossa amizade. Ento  provvel que, ao ver um poema seu, eu esteja "lendo nas entrelinhas" algo que voc na verdade 
no quer dizer.
      - Oh, no sabia disso! exclamou o rapaz.
      - Sei que tem sido at cuidadoso com o que me diz em suas cartas, mas tenho de lhe dizer que com elas voc conquistou meu corao.
      Paul fez um aceno de cabea, demonstrando que estava entendendo.
      - . Creio que isso  parecido com o que me aconteceu na praia. Voc assumiu uma certa liberdade no relacionamento fsico e eu "enxerguei" algo que no era 
verdade.
      Selena deu de ombros.
      - Sou um pouco novata nessa questo de namoro, disse. Agora j sei que no devo ser to aberta.
      - , interps o rapaz. E eu vou ter mais cuidado com o que digo.
      Ele estendeu a mo e pegou a jia em formato de lrio que pendia do pescoo dela.
      - Mas, Selena, continuou ele, no v tambm correr para o outro extremo e se fechar totalmente. Sempre admirei seu esprito combativo. Gosto do jeito como 
voc se expressa abertamente e com toda franqueza.
      - , disse a garota, mas eu preciso controlar um pouco esse meu impulso combativo.
      Paul inclinou um pouco a cabea.
      - Pode ser, respondeu, e eu tambm preciso controlar um pouco meu esprito potico.
      - , talvez, comentou Selena. E agora? Como ficamos?
      - Acho que sei o que vamos fazer, replicou o rapaz, largando a correntinha e estendendo a mo para ela.
      Selena deu-lhe a mo, e Paul a segurou com firmeza. Olhou para o alto, para o vitral colorido em azul e dourado. O jato de luz dava sobre suas mos unidas.
      - Vamos continuar daqui pra frente, ajudando um ao outro a ter uma vida mais controlada, em "honra e santidade".
      - E mais equilibrada tambm, ajuntou a garota, lembrando-se de como estivera numa verdadeira "montanha-russa" emocional nos ltimos dias.
      - Isso. Equilibrada, repetiu Paul. E no captulo seguinte de Tessalonicenses, Paulo diz para saudarmos uns aos outros com "beijo de irmo" (BLH). Ento entendo 
que esse equilbrio deve ser assim, continuou ele, erguendo a mo dela e beijando-a.
      - Isso vai do meu corao para o seu, prosseguiu o rapaz em voz suave. Um beijo santo para a Princesa dos Lrios.
      Em seguida, inclinou-se e deu-lhe um beijo no alto da cabea, como faria um poeta romntico.
      Selena sentiu vontade de abra-lo, passar os braos em volta do pescoo dele e retribuir-lhe o beijo na boca. Contudo controlou-se. E, para surpresa sua, 
percebeu que conseguia perfeitamente ficar parada, sem ter de obedecer quele impulso. Lembrou-se do que Cris lhe dissera sobre o cofrinho em formato de porquinho. 
Nesse momento, resolveu que iria guardar aquele abrao em seu cofrinho invisvel, par d-lo ao seu futuro marido.
      - Quer ir jantar? indagou Paul.
      - Quero, replicou a garota.
      Sentia-se totalmente tranquila e em paz com respeito ao relacionamento deles, tanto para o presente como para depois.
      Paul se levantou e estendeu a mo para ajud-la a erguer-se. Selena se ps de p, e os dois foram saindo da silenciosa igreja. A atmosfera ali parecia impregnada 
de uma presena santa. A garota experimentou uma sensao de solene quietude. Imaginou que Ado e Eva deviam ter sentido o mesmo, quando o Senhor Deus andava com 
eles na virao do dia.
      - Deus est aqui, disse ela para Paul. Sabe disso, n?
      - Sei, replicou o rapaz.
      Saindo porta afora, os dois pararam um instante para ver o Sol acabar de se pr, desaparecendo na linha do horizonte.
      Depois, envoltos na luz dourada da presena de Deus e das promessas dele, Paul e Selena foram caminhando, um ao lado do outro. Seguiam pela estradinha que 
os levava de volta aos prdios do campus e ao futuro.
Fim
      

      
     Rosto da Selena formado com os 12 volumes da Srie
     

* Pioneiros - Famlias do leste dos Estados Unidos que, nos meados do sculo XIX, iam para o centro e o oeste desse pas, com o objetivo de coloniz-lo. (N. da T.)
* Nos Estados Unidos, as mulheres no usam aliana de noivado na mo direita, como no Brasil. Usam um anel, geralmente de brilhante, no dedo anular da mo esquerda. 
No dia do casamento, recebem uma aliana, que ento passam a usar junto com o anel. (N. da T.)
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